Menos aves nas regiões com maior uso de pesticidas, revela estudo científico

© shottrotter
© shottrotter

As regiões onde o uso de pesticidas é mais intenso registam também uma menor presença de aves. Esta é a conclusão central de um novo estudo realizado por investigadores do Museu Nacional de História Natural de França, que estabelece uma relação direta entre a utilização de produtos fitofarmacêuticos e o declínio das populações de aves em meios agrícolas.

Os cientistas analisaram sobretudo as espécies que vivem e se alimentam nas proximidades de terrenos cultivados. Pela primeira vez, foi possível associar de forma sistemática os dados locais de compra de pesticidas com a abundância de aves observadas no terreno, graças à obrigação de declaração das vendas destes produtos em vigor em França desde 2006. Este quadro legal permitiu aos investigadores aceder a informações inéditas e ligar práticas agrícolas concretas à evolução da biodiversidade.

O estudo cruzou os dados de aquisição de 242 substâncias ativas com a presença de 64 espécies de aves comuns nas zonas agrícolas. As conclusões são claras: em mais de 84% das espécies analisadas, a compra de maiores quantidades de pesticidas está associada a efetivos mais baixos de aves. Esta ligação mantém-se mesmo quando são tidos em conta outros fatores ligados à intensificação agrícola, como a mecanização, o uso de fertilizantes ou a redução dos habitats semi-naturais. Segundo os autores, o impacto negativo dos pesticidas é generalizado e não se limita às espécies especializadas dos meios agrícolas, afetando também aves comuns que utilizam os campos cultivados para se alimentar.

O estudo aponta ainda para alguns sinais de evolução positiva desde a proibição dos neonicotinóides em França, em 2018. Quatro anos após a entrada em vigor dessa medida, começam a observar-se recuperações tímidas, mas reais, em determinadas populações de aves, sobretudo nas espécies insetívoras, particularmente sensíveis a este tipo de substâncias. Estes resultados sugerem que a redução do uso de pesticidas pode produzir efeitos benéficos a médio prazo, ainda que de forma gradual.

Apesar destes avanços, os investigadores alertam para as dificuldades persistentes em medir com precisão o impacto dos pesticidas sobre a biodiversidade. Além disso, continua a ser complexo dissociar o efeito específico dos pesticidas de outros fatores associados à agricultura intensiva, que tendem a evoluir em paralelo.

A recolha de dados abrangentes sobre um grande número de espécies e paisagens representa igualmente um desafio logístico e humano significativo. Neste contexto, os programas de ciência cidadã desempenham um papel fundamental. Não hesite em contactar a LPO em França ou a SPEA em Portugal para propor a sua ajuda.

Didier Caramalho

Article précédentVenezuela: Retoma dos voos está para breve e há nove luso-venezuelanos presos
Article suivantPortuguês administrador do banco CGD em Moçambique assassinado em Maputo