
Marcelo Rebelo de Sousa, eleito Presidente há dez anos, fez 171 deslocações ao estrangeiro, mais do que os seus antecessores, mas quase todas de curta duração, das quais 21 visitas de Estado, tendo visitado 60 países diferentes.
Esta contagem inclui todo o tipo de deslocações – para eventos desportivos e culturais, visitas oficiais e de Estado, posses e cerimónias fúnebres, cimeiras e reuniões internacionais, comemorações do Dia de Portugal e visitas a forças nacionais destacadas – desagregadas por país, mesmo quando as visitas foram seguidas.
Seguindo os mesmos critérios de contagem para os anteriores presidentes da República, António Ramalho Eanes fez no conjunto dos dois mandatos cerca de 45 viagens, Mário Soares mais de 160, Jorge Sampaio à volta de 145 e Aníbal Cavaco Silva 80.
Estes dados relativos às viagens dos anteriores presidentes, que não estão disponíveis publicamente de forma organizada, foram recolhidos pela Lusa através da consulta das resoluções da Assembleia da República publicadas em Diário da República, da biblioteca e do arquivo histórico da Presidência da República, de arquivos de jornais e da RTP, entre outras fontes.
Ao contrário dos seus antecessores, Marcelo Rebelo de Sousa não quis fretar aviões, o que diminuiu a cobertura mediática das suas deslocações. Quase todas foram de curta duração, por norma sem incluir períodos livres nem pontos turísticos, com o chefe de Estado a viajar em aviões comerciais ou militares, com comitivas reduzidas, sem a prática de levar empresários ou artistas, e por vezes até sem assessores.
As suas últimas deslocações foram ao Mónaco, em novembro do ano passado, em visita de Estado, a convite do príncipe Alberto II, e, ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, França, nesta semana, para assinalar os 40 anos de adesão à União Europeia.
Marcelo Rebelo de Sousa tem ainda previstas duas visitas oficiais, em fevereiro, ao Vaticano e a Espanha – que adiou por ter sido inesperadamente operado a uma hérnia abdominal, em dezembro –, em que estará pela primeira vez com o Papa Leão XIV e uma vez mais com o monarca espanhol Felipe IV, com quem estabeleceu uma relação próxima.
Esses dois destinos foram, justamente, os primeiros que visitou no estrangeiro em cada mandato. Foi primeiro ao Vaticano, durante o pontificado do Papa Francisco – o que dissociou da sua condição de católico, justificando essa decisão com o facto de a Santa Sé ter sido a primeira entidade a reconhecer internacionalmente Portugal como um Estado independente e D. Afonso Henriques como rei – e depois a Espanha.
Ao longo destes quase dez anos, foi recebido também, entre outros, e pela rainha do Reino Unido Isabel II, no Palácio de Buckingham, no mesmo ano em que também se encontrou com o líder histórico cubano Fidel Castro, em Havana, pelo Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, no Palácio do Kremlin, e pelo Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump, na Casa Branca. Esteve com o Presidente da China, Xi Jinping, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, e recebeu-o em Lisboa.
O antigo comentador político e professor universitário de direito, entretanto jubilado, que liderou o PSD entre 1996 e 1999, hoje com 77 anos, iniciou o primeiro mandato em 09 de março de 2016, com uma agenda intensa, menos acentuada nos últimos anos, sobretudo no último, em que houve legislativas antecipadas e campanha para a escolha do seu sucessor.
No plano interno, é difícil reconstituir com rigor a sua atividade, porque Marcelo Rebelo de Sousa optou por não divulgar oficialmente à comunicação social todas as iniciativas em que participou e geriu a sua agenda com algum grau de imprevisibilidade, com visitas de surpresa ou confirmadas em cima da hora, algumas nem reveladas aos próprios assessores.
Por outro lado, dentro e fora do país, foi um Presidente da República acessível aos jornalistas, a quem nunca impôs limites de perguntas nem afastou através dos seguranças, e em regra disponível para responder a quem quer que o abordasse, fossem jovens em reportagem para o jornal da escola ou repórteres da imprensa estrangeira nos jardins das Nações Unidas.
Como as idas ao exterior são obrigatoriamente comunicadas antecipadamente à Assembleia da República, nos termos da Constituição, tornavam-se assim do conhecimento público.
Os países que mais visitou foram Espanha, onde foi 18 vezes, França, onde esteve 17 vezes, e Estados Unidos da América, com 12 deslocações, oito das quais à sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, desde que assumiu funções, em 09 de março de 2016.
Fez visitas de Estado a Moçambique, Suíça e Cuba, em 2016, Cabo Verde, Senegal, Croácia, Luxemburgo e México, em 2017, São Tomé e Príncipe, Grécia, Egito e Espanha, em 2018, Angola, China, Costa do Marfim e Itália, em 2019, Índia, em 2020 – ano em que a pandemia de covid-19 o obrigou a adiar praticamente toda a agenda internacional –, à Irlanda, em 2022, à Bélgica, em 2023, e aos Países Baixos, em 2024, e ao Mónaco, em 2025.
Marcelo Rebelo de Sousa visitou forças militares destacadas em Kaunas, Lituânia, e Málaga, Espanha, em 2017, na República Centro-Africana, em 2018, no Afeganistão, em 2019, na Roménia, em 2022, e na Eslováquia, em 2024.
Foi a mais de uma dezena de jogos da seleção masculina de futebol, um da seleção de râguebi e outro da seleção de andebol e à abertura dos Jogos Olímpicos de 2018, no Brasil, e de 2024, em França.
Esteve em quase três dezenas de encontros multilaterais: seis reuniões da Assembleia Geral das Nações Unidas, cinco cimeiras ibero-americanas e quatro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), e ainda a sete encontros informais do Grupo de Arraiolos e quatro da organização empresarial Cotec Europa – sem contar com os realizados em território português.
Comemorou o Dia de Portugal junto de comunidades emigrantes em Paris, em 2016, no Rio de Janeiro e São Paulo, em 2017, na Costa Leste norte-americana, em 2018, em Cabo Verde, em 2019, em Londres, em 2022, na África do Sul, em 2023, num modelo original que lançou com o primeiro-ministro, António Costa, e que prosseguiu com o atual chefe do Governo PSD/CDS-PP, Luís Montenegro, na Suíça, em 2024, e na Alemanha, em 2025.
A partir do seu segundo mandato, houve visitas aprovadas pelos deputados sem a habitual unanimidade, com abstenções e até votos contra, e contestadas em termos gerais pelo partido Chega, cujo presidente, André Ventura lhe atribuiu erradamente um total de 1.500 viagens e até confundiu a Festa dos Cidadãos em Berlim, Bürgerfest, com um festival de hambúrgueres.
Sem querer falar diretamente sobre o presidente do Chega, Marcelo Rebelo de Sousa procurou explicar a importância das deslocações que faz ao estrangeiro, argumentando que atualmente um chefe de Estado português tem de fazer mais viagens do que no passado porque Portugal tem mais relações diplomáticas com outros países e devido à situação internacional, « por cumprimento de uma missão », e não « por prazer ».
A sua deslocação mais controversa foi a ida ao Mundial de Futebol do Qatar, em 2022, que teve votos contra de IL, BE, PAN, Livre e de quatro deputados do PS e abstenções de Chega, de três deputados do PS e três do PSD.
Rádio Alfa com LUSA