Aos 83 anos, morreu António Lobo Antunes, um dos nomes maiores da literatura portuguesa

O escritor português António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, deixando um legado literário marcante com cerca de quatro dezenas de livros publicados. Considerado um dos autores portugueses mais influentes da segunda metade do século XX, foi distinguido com o Prémio Camões em 2007.

A primeira hora do ALFA 10/13 desta quinta-feira, 5 de março, foi totalmente dedicada ao desaparecimento de António Lobo Antunes:

 

António Lobo Antunes nasceu a 1 de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa, no seio de uma família da alta burguesia. O pai era um reconhecido neurologista português. Frequentou o Liceu Camões e formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 1969. Apesar de a escolha do curso ter sido motivada sobretudo pelo desejo de corresponder às expectativas familiares, acabaria por especializar-se em psiquiatria após regressar da guerra colonial. Pois, entre 1970 e 1973 esteve em Angola, mobilizado numa experiência que viria a influenciar profundamente a sua obra literária.

A carreira literária começou em 1979, com a publicação de Memória de Elefante e Os Cus de Judas, a que se seguiu Conhecimento do Inferno em 1980. Estes primeiros romances, fortemente autobiográficos e ligados à experiência da guerra, tornaram-se rapidamente referências na literatura contemporânea portuguesa.

Em 1981 publicou Explicação dos Pássaros, obra que aprofundava temas como a angústia humana e a complexidade psicológica das personagens, refletindo também a sua experiência como psiquiatra. O reconhecimento consolidou-se com Fado Alexandrino (1983) e, dois anos depois, com Auto dos Danados, romance que lhe valeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.

A partir da década de 1980, os livros de Lobo Antunes começaram a ser traduzidos e publicados em vários países europeus, incluindo Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, bem como no Brasil, Estados Unidos e Canadá. Em 1987 recebeu o Prémio Literário Franco‑Português pela tradução francesa de Os Cus de Judas, o primeiro grande reconhecimento internacional da sua carreira.

Durante vários anos, António Lobo Antunes conciliou a literatura com a prática médica no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. A partir de 1985 passou a dedicar-se sobretudo à escrita, embora tenha mantido durante algum tempo uma presença semanal no hospital, que dizia ser uma forma de preservar o equilíbrio mental. O escritor descrevia frequentemente a escrita como um processo exigente e solitário, insistindo que “um escritor tem de escrever” e que esse trabalho requer disciplina, humildade e persistência.

Ao longo de mais de quarenta anos publicou dezenas de romances, entre os quais As Naus (1988), Tratado das Paixões da Alma (1990), A Ordem Natural das Coisas (1992), A Morte de Carlos Gardel (1994), Manual dos Inquisidores (1996) e O Esplendor de Portugal (1997). Nos seus livros, o autor explorou frequentemente memórias pessoais e uma visão crítica da história portuguesa. Em 1999, venceu novamente o Grande Prémio de Romance da APE com Exortação aos Crocodilos. Nos anos seguintes publicou obras como Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (2000), Que Farei Quando Tudo Arde? (2001), Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003) e Eu Hei-de Amar Uma Pedra (2004). Nas últimas duas décadas manteve um ritmo constante de publicação, com títulos como Ontem Não Te Vi em Babilónia (2006), O Meu Nome é Legião (2007), O Arquipélago da Insónia (2008), Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? (2009), Comissão das Lágrimas (2011), Caminho Como uma Casa em Chamas (2014) e O Tamanho do Mundo (2022).

O seu livro mais recente, Crónicas II, chegou às livrarias em outubro do ano passado, reunindo quase duas centenas de textos.

Formado em medicina, acabou por encontrar na literatura a sua verdadeira forma de existir: uma vocação que o tornou numa das figuras centrais da literatura portuguesa contemporânea.

Didier Caramalho

Article précédentMais de metade dos franceses é contra uma intervenção militar da França no atual conflito no Médio Oriente.