Leão XIV assinala um ano de pontificado a desafiar Trump e a recentrar a Igreja

Papa Leão XIV

O Papa Leão XIV assinala na sexta-feira um ano de pontificado marcado por um confronto inédito com o Presidente dos EUA, Donald Trump, fixando o tom de um papado que combina prudência institucional com afirmação moral.

 

A tensão com Trump, que o acusou de ser fraco e « demasiado liberal » – a que Leão XIV respondeu que « não tem medo » dele – após críticas papais a ameaças contra o Irão, tornou-se o episódio mais mediático dos primeiros 12 meses, com o papa a insistir que a sua missão é « proclamar o Evangelho, não ser político ».

Eleito a 8 de maio de 2025 na quarta votação do conclave, o antigo cardeal norte-americano Robert Francis Prevost – primeiro papa dos EUA e primeiro agostiniano – surgiu como candidato de compromisso, com experiência curial e forte percurso missionário no Peru.

Logo na primeira semana, Leão XIV marcou o estilo: na missa inaugural afirmou que a Igreja deve ser « farol que ilumina as noites do mundo » e, dias depois, lembrou aos funcionários do Vaticano que « os papas passam, mas a Cúria permanece », sinalizando uma governação mais institucional do que carismática.

Ao longo do ano, Leão XIV procurou equilibrar continuidade e correção face ao legado do seu antecessor, Papa Francisco, mantendo a orientação pastoral e social, mas com maior ênfase na ordem interna e na estabilidade.

Entre as principais reformas, destacou-se a reorganização da Cúria Romana com novos regulamentos, reforço do papel da Secretaria de Estado (a diplomacia do Vaticano) e aposta na coordenação interdepartamental, num modelo descrito por analistas como « reforma por absorção », mais gradual e menos disruptiva.

No plano doutrinário, Leão XIV reafirmou posições tradicionais – contra o aborto, a eutanásia e a ordenação feminina – e publicou textos como Una caro, defendendo a monogamia, ao mesmo tempo que procurou reduzir conflitos internos ao evitar debates prolongados.

A sua agenda internacional revelou um papa atento aos grandes conflitos globais: na Ucrânia, apelou a « negociações para uma paz justa »; no Médio Oriente, condenou a guerra e denunciou a « ilusão de omnipotência » dos líderes; e, de forma transversal, afirmou que « Deus rejeita as orações de quem promove conflitos ».

A visita a África, em abril, foi um dos momentos altos do pontificado, com particular impacto em Angola, onde criticou a « lógica extrativista » e alertou que o país « não deve ser tratado como uma mina a céu aberto », numa intervenção que ecoou para além do campo religioso.

No campo emergente da tecnologia, Leão XIV posicionou-se como uma das vozes morais sobre a inteligência artificial, alertando para os riscos da Quarta Revolução Industrial e defendendo que a inovação deve respeitar « a dignidade humana, a justiça e o trabalho ».

Apesar da imagem de moderado, o Papa não escapou a críticas: organizações de vítimas de abusos questionam decisões passadas, teólogos progressistas apontam falta de abertura em temas como o diaconato feminino, e setores conservadores acusam-no de ambiguidade pastoral.

Ainda assim, Leão XIV consolidou-se como uma figura de mediação num mundo fragmentado, com capacidade para dialogar entre correntes internas da Igreja e entre blocos geopolíticos, sustentado numa identidade singular: norte-americano de nascimento, latino-americano por experiência e romano por função.

 

Com Agência Lusa.

 

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