Professores do Ensino Português no Estrangeiro contestam em Lisboa novo regime jurídico

Foto. Ilustração de Max Fischer (Pexels)

Professores do Ensino Português no Estrangeiro (EPE) manifestaram-se hoje, em Lisboa, para exigir aumentos salariais, a redução do horário letivo e a melhoria das condições de trabalho, contestando a proposta do novo regime jurídico apresentada pelo Governo.

Os sindicatos representativos dos professores e o Governo iniciaram, no passado dia 28 de maio, as reuniões do processo negocial relativas à revisão do Regime Jurídico do Ensino Português no Estrangeiro (RJEPE), cuja pasta é tutelada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).

Em declarações à Lusa, a professora Teresa Kueffer, do EPE Suíça, presente na manifestação, explicou que as tabelas salariais não são atualizadas há anos, desde 2009 para a maioria e desde 1997 para os leitores, e que trabalhar num país fora da zona euro agrava a perda de rendimentos.

« Temos os problemas gerais que toda a gente tem. O nosso ordenado não é suficiente para cobrir as despesas, depois do pagamento do IRS [e] da segurança social », disse Teresa Kueffer, contando que recebe « em euros, num país onde se faz tudo em francos [suíços] » e que tem « um custo de vida elevadíssimo ».

A professora classificou as condições salariais como « deploráveis ».

A par das questões remuneratórias, os professores do EPE na Suíça enfrentam problemas burocráticos com a emissão tardia de formulários essenciais para o acesso aos seguros de saúde e a falta de reembolso de despesas de transporte entre escolas.

« Quando nos deslocamos, as horas que nos deslocamos, o trabalho que é feito, que equivale a horas de direção turma, sem redução, deslocações por vezes de uma hora, duas horas, três horas, para ir dar um curso, sem que haja essa consideração a nível de tempo de serviço. Nós estamos oficialmente a trabalhar quando nos deslocamos, de um curso para o outro, estamos em serviço, mas esse tempo praticamente não é contabilizado », referiu.

Em França, a situação é « insustentável », descreveu a professora Carla Lourenço, destacando a disparidade entre o subsídio de refeição pago pelo Estado português e a realidade económica do país de acolhimento.

« Eu com seis euros em Paris não consigo almoçar, nem sequer no McDonald’s. Se não nos ajudam a ter uma vida digna nos países em que estamos – e na região de Paris o nível de vida é bastante elevado -, não vamos conseguir sobreviver, não sei como é que vou fazer », declarou Carla Lourenço, lembrando que a inflação e a carga fiscal acumularam perdas substanciais desde o período da Troika.

A docente alertou também para o volume de trabalho não remunerado, referindo a participação em eventos culturais fora do horário laboral, a ausência de reduções de horário pela idade e o tempo gasto em deslocações não compensadas entre escolas distantes.

Já a professora Carla Guerreiro, que leciona na Alemanha, apelidou a proposta de revisão do regime jurídico de « uma bomba atómica » em vez da « revolução » prometida pela tutela.

Apesar de reconhecer avanços em pontos específicos trazidos pelas rondas negociais, como a cobertura das despesas de bagagem em fim de comissão de serviço, o subsídio de instalação e o pagamento de uma viagem a Portugal de três em três anos, a professora apontou falhas graves na componente pedagógica e na avaliação.

« Apresentaram-nos tabelas salariais que baixam o salário e que são omissas quanto ao enquadramento fiscal e de aposentação. Além disso, propõem uma avaliação anual intercalar feita por alunos menores de idade e sem maturidade, o que é desprovido de lógica », criticou Carla Guerreiro.

A docente da rede alemã alertou para a redução das horas semanais dedicadas aos alunos, que desceu para cerca de um terço em termos comparativos com anos anteriores, dificultando o aprofundamento de autores clássicos como Camões ou Gil Vicente e conteúdos de História de Portugal.

Para pressionar o executivo e exigir que as tabelas salariais reflitam o real custo de vida nos respetivos países, os professores do EPE submeteram uma petição, que contava, ao princípio da tarde de hoje, com 8.836 subscrições.

Os docentes não descartam o recurso a outras formas de luta caso as negociações com a tutela não assegurem garantias de dignidade profissional.

Segundo o presidente do Sindicato de Professores no Estrangeiro (SPE), Bruno Silva, estão em negociação a redução do horário letivo, o recrutamento, a avaliação, as remunerações e a proteção social.

Bruno Silva disse que foram enviadas novas contrapropostas sobre estas matérias.

O processo negocial do novo regime tem ainda previsto duas reuniões, uma a 27 de julho e outra a 31 de julho ou 03 de agosto, ainda por confirmar.

 

Com Agência Lusa.

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