Luís Neves diz que se sente apoiado por Montenegro e nunca pensou em demitir-se

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, intervém durante uma conferência de imprensa, no Ministério da Administração Interna, em Lisboa, 29 de julho de 2026. FILIPE AMORIM/LUSA

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, garantiu hoje que se sente apoiado pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, e que nunca pensou demitir-se na sequência das polémicas das últimas semanas.

« Sinto-me absolutamente apoiado pelo senhor primeiro-ministro e por todos os membros do Governo com quem tenho falado e interagido », afirmou, em conferência de imprensa, Luís Neves, sublinhando que nunca pensou em apresentar um pedido de demissão a Luís Montenegro na sequência das informações que têm vindo a público sobre as obras realizadas num terreno seu no Alentejo e do atrelado encontrado na propriedade do construtor que lhe fez as obras em Odemira.

A garantia de Luís Neves foi dada no Ministério da Administração Interna, em Lisboa, com a presença na sala dos seus três secretários de Estado.

O governante assegurou ainda que continuará a cumprir a missão de tutelar a área da Administração Interna, « para a qual está totalmente legitimado e empoderado ».

« Tenho mais de 30 anos de serviço público, nunca trabalhei para interesses particulares. Trabalhei sempre e apenas para o Estado, para as pessoas, para o país. […] Agi sempre na minha vida com total independência e sentido de dever. Nunca utilizei cargos públicos para beneficiar quem quer que fosse e rejeito qualquer insinuação nesse sentido », defendeu Luís Neves.

« Sei o que é certo e errado. Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem », frisou.

Questionado sobre a comissão parlamentar de inquérito proposta pelo Chega aos seus mandatos à frente da PJ, o ministro da Administração Interna congratulou-se com « todos os momentos que existam para que seja esclarecida alguma dúvida » e recordou que sempre esteve disponível para responder a tudo, mas alertou que « há o reverso da medalha ».

« O que querem ver? Como conseguimos passar de 105 milhões para quase 400 milhões [de orçamento], as aquisições que fizemos, os meios humanos que pusemos, os valores que o pessoal da Polícia Judiciária hoje ganha? Ou querem sindicar os meus mandados de detenção, que eu prendi ao longo da vida milhares de bandidos a sério, violadores, raptores, homicidas, portugueses, estrangeiros? », questionou Luís Neves.

Ministro não vê « mínimo motivo » para ser arguido no caso de atrelado apreendido

O ministro da Administração Interna alegou hoje que não vê o « mínimo motivo » para ser constituído arguido no inquérito-crime ao caso do atrelado apreendido pela Polícia Judiciária (PJ) e encontrado na propriedade de um construtor de Barcelos.

« Não vejo mínimo motivo para ser constituído arguido », respondeu Luís Neves, ao ser questionado, numa conferência de imprensa no Ministério da Administração Interna, sobre se tal seria, no seu entender, uma linha vermelha.

Embora reconhecendo que a constituição como arguido é uma possibilidade entre todas as que « existem para todos os cidadãos », Luís Neves insistiu que tomaria hoje, caso ainda fosse diretor da Polícia Judiciária (PJ), a mesma decisão de autorizar o transporte do atrelado, « em prol da poupança do Estado e de encontrar uma solução urgente que permitisse acautelar a guarda daquele património ».

Há cerca de duas semanas, a Polícia Judiciária abriu um inquérito sobre um atrelado apreendido num processo de tráfico de droga que foi encontrado atracado a um camião da empresa Construbarcelos, em Barcelos, que fez obras numa propriedade de Luís Neves no Alentejo.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou « a existência de um inquérito relacionado com bens apreendidos à ordem do processo designado ‘Operação Pacoba' », tendo acrescentado posteriormente que este está a cargo do Ministério Público e que, por agora, a investigação não será delegada em nenhum órgão de polícia criminal, entre os quais se inclui a PJ.

« Não foi desviado qualquer bem, não foi comprometida qualquer prova, não foi beneficiado quem quer que fosse e não há aqui qualquer ligação ao tráfico de droga », salientou hoje o ministro da Administração Interna, diretor da PJ entre junho de 2018 e fevereiro de 2026.

Segundo Luís Neves, a proposta de movimentação do atrelado e de bidões que continham produtos que serviam para produção de droga partiu de um alto quadro da PJ e, na altura, « não havia outra opção » para guardar o material apreendido, uma vez que foram pedidos 150 mil euros para que destruição dos produtos químicos – valor que a PJ não tinha.

 

Luís Neves diz que desconhecia que monte estava em área protegida e quer regularizar obra

O ministro da Administração Interna assegurou hoje que não sabia que a sua propriedade no Alentejo, com um tanque transformado em piscina, se situa em área protegida, tendo já pedido à autarquia uma reunião para regularizar a situação.

O jornal Nascer do Sol noticiou, ao longo das últimas três semanas, que o antigo diretor da Polícia Judiciária (PJ) construiu num monte (quinta) no concelho de Odemira, integrado em área de Reserva Agrícola Nacional e Reserva Ecológica Nacional, uma piscina, inicialmente classificada por Luís Neves como um tanque, sem licenciamento.

Hoje, Luís Neves defendeu, exibindo numa conferência da imprensa uma fotografia antiga da propriedade, que a construção inicial era um « tanque acima do solo », que « depois acabou por ser transformado em piscina », obra para qual admitiu não ter pedido licenciamento.

O governante acrescentou que desconhecia que a propriedade está situada em área protegida.

« Com humildade, já solicitei à Câmara Municipal de Odemira uma reunião com caráter de urgência para esclarecer e regularizar a situação. Se algo tiver de ser regularizado, será », afirmou, no Ministério da Administração Interna, em Lisboa.

A obra foi feita pela Construbarcelos, uma empresa que realizou várias empreitadas em edifícios da PJ enquanto o ministro foi diretor nacional desta instituição, entre junho de 2018 e fevereiro de 2026.

Insistindo que só conheceu o dono da empresa sediada em Barcelos em 2023, já depois de este ter realizado várias obras para a PJ, Luís Neves sustentou que, embora a relação contratual possa suscitar dúvidas, nunca existiu qualquer favorecimento.

« A Construbarcelos nunca teve peso determinante ou sequer relevante na contratação da Polícia Judiciária », alegou o ministro, precisando que o valor dos contratos celebrados entre 2019 e 2025 entre a força policial e a construtora « representaram apenas 8% » do valor global de 27 milhões de euros adjudicados por aquela instituição no mesmo período.

« Depois de conhecer o senhor João Carvalho, esta empresa representou apenas cerca de 4% do valor das empreitadas contratadas pela instituição, obras complementares a contratos que já se encontravam em execução », frisou.

No total, Luís Neves terá pago em numerário pelas obras no monte, em « 10 a 12 fins de semana, cinco mil euros de forma faseada », dos quais, reiterou, foram passadas faturas no Portal das Finanças.

Atualmente, a empresa deixou de fazer obras em sua casa, porque, « se fosse hoje, teria feito de forma diferente ».

Ao longo das últimas semanas, foi ainda tornado público na comunicação social que, durante os oito anos em que esteve à frente da PJ, Luís Neves não entregou na Entidade para a Transparência, que funciona junto do Tribunal Constitucional, as declarações de património a que, dado o cargo público, estava obrigado.

« Enquanto diretor nacional nunca me foi entregue qualquer notificação pelo Tribunal Constitucional para entregar [a declaração] », disse hoje, ressalvando que o aviso para tal acabou por surgir em maio de 2025.

Na altura, relatou, toda a direção da PJ apresentou « um parecer junto da Entidade para a Transparência » a defender que, por razões de segurança, os dirigentes fossem excluídos dessa obrigação, o que foi rejeitado.

« A Entidade para a Transparência não acolheu o nosso parecer e entregámos a declaração », assegurou.

Questionado sobre se, neste momento, todas as declarações foram entregues, Luís Neves respondeu que sim.

 

Com Agência Lusa.

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