
A exposição “Splendeurs du baroque – De Greco à Velázquez”, patente no Museu parisiense Jacquemart-André, coloca em evidência a riqueza da arte barroca hispânica através de um conjunto de obras provenientes da Hispanic Society of America. Mas a inauguração ficou marcada também por um anúncio decisivo: a entrada das primeiras pinturas portuguesas na coleção da instituição nova-iorquina: uma Missa de São Gregório de Fernão Gomes, e uma Pietà de Vieira Portuense.
Entrevista de Guillaume Kientz (em francês) e Philippe Mendes (em português) conduzida por Didier Caramalho :
O denominado “Século de Ouro” encarna o auge do poder espanhol no mundo nos séculos XVI e XVII, tendo assistido ao florescimento do génio artístico de grandes mestres, sobretudo na pintura. Esta arte tornou-se, para a coroa espanhola, um veículo privilegiado da sua magnificência. A grandeza deste “Século de Ouro” justificava, portanto, uma exposição de grande envergadura: inaugurada no Museu Jacquemart-André no passado dia 26 de março, sob o título “Esplendores do Barroco, de El Greco a Velázquez”, a mostra reúne, pela primeira vez em França, mais de quarenta obras provenientes das coleções da Hispanic Society of America, de Nova Iorque.
Fundada em 1904 pelo mecenas americano Archer Milton Huntington, esta instituição constitui o mais importante museu dedicado à valorização das artes e culturas hispânicas e lusófonas fora da Península Ibérica.

Atualmente dirigida pelo francês Guillaume Kientz, a instituição apresenta em Paris obras-primas de Doménikos Theotokópoulos, conhecido como El Greco, entre as quais a sua deslumbrante Pietà do início da década de 1570, bem como telas do incontestável mestre da escola espanhola, o retratista Diego Rodríguez de Silva y Velázquez, cujo hipnotizante Retrato de Jovem Rapariga, do final da década de 1630, é a imagem da exposição parisiense. Pinturas de artistas como Francisco de Zurbarán ou Bartolomé Esteban Murillo, dignos representantes do barroco, completam esta exposição que retrata com rigor a vitalidade artística espanhola da época.
Um momento histórico: a entrada da pintura portuguesa na instituição nova-iorquina
Por ocasião da inauguração de “Splendeurs du baroque – De Greco à Velázquez”, o diretor da Hispanic Society of America revelou a aquisição de duas pinturas portuguesas. Estas novas incorporações incluem uma rara pintura religiosa do mestre renascentista português Fernão Gomes, bem como uma pintura devocional neoclássica de Francisco Vieira, conhecido como Vieira Portuense.
Um dos principais pintores ativos em Portugal no final da Renascença, Fernão Gomes, passa assim a estar representado na coleção do museu nova-iorquino com uma composição religiosa que ilustra a Missa de São Gregório, um tema devocional amplamente difundido na Europa católica. A cena representa a aparição milagrosa de Cristo durante uma missa celebrada pelo Papa Gregório I, afirmando o dogma da Eucaristia. A riqueza iconográfica e a intensidade devocional da obra ilustram o estilo maneirista tardio que floresceu na Península Ibérica no auge da Contrarreforma.

Esta pintura a óleo sobre madeira foi doada pelo galerista luso-descendente Philippe Mendes, que já havia oferecido um desenho do mesmo artista à Hispanic Society of America em 2022. Philippe Mendes não é estreante neste tipo de iniciativas: em 2016, o colecionador e conselheiro artístico do príncipe Amyn Muhammad Aga Khan doou ao Museu do Louvre uma pintura de Josefa de Óbidos, considerada a mais importante pintora portuguesa do século XVII. Atualmente, essa obra encontra-se exposta na sala de pintura espanhola, ao lado de uma tela do seu pai, Baltazar Gomes Figueira. Sete anos após essa doação, em outubro de 2023, Philippe Mendes vendeu à instituição uma magnífica pintura a óleo sobre madeira, uma Ressurreição de Cristo, realizada por volta de 1540 por Cristóvão de Figueiredo e Garcia Fernandes.
A segunda aquisição portuguesa da Hispanic Society (na qual o Louvre também estava interessado) é uma comovente Pietà do pintor português Vieira Portuense. Pintada em 1801 como “ricordo” do seu célebre retábulo hoje conservado no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa, esta obra testemunha o seu domínio da pintura neoclássica do final do século XVIII. A composição íntima representa a Virgem Maria a chorar o corpo de Cristo, seu filho, com uma emoção contida e uma atenção minuciosa ao modelado anatómico e à luz. “São duas aquisições muito importantes, porque finalmente a pintura portuguesa vai ser representada do outro lado do Atlântico”, sublinha Philippe Mendes.

Estas duas aquisições vêm, de facto, reforçar as coleções de arte portuguesa da Hispanic Society of America, já ricas em artes decorativas lusitanas, que constituem um eixo de desenvolvimento importante nos últimos anos. “Ainda não tínhamos pintura portuguesa no museu, exceto talvez Velázquez, uma vez que o seu pai era português”, afirma Guillaume Kientz. “Queremos mostrar mais arte portuguesa fora de Portugal”, acrescenta ainda o diretor do museu nova-iorquino, já detentor de um notável conjunto de desenhos de Domingos António de Sequeira, Fernão Gomes e Cirilo Machado.
O próximo objetivo da instituição é “encontrar uma obra de Josefa de Óbidos” para fazer de Nova Iorque uma verdadeira montra mundial da arte portuguesa. “A pintura portuguesa precisa de visibilidade internacional para brilhar com o reconhecimento que merece”, salienta Guillaume Kientz, que anunciou ainda a abertura, até 2028, de galerias especificamente dedicadas à arte portuguesa na Hispanic Society of America. “A arte portuguesa é pouco conhecida porque está maioritariamente conservada em Portugal”, sublinha o diretor, insistindo na importância da internacionalização para a sua difusão e valorização.
O quadragenário, anteriormente conservador de pintura espanhola, portuguesa e latino-americana no Museu do Louvre entre 2010 e 2019, admite mesmo que a abertura de uma sala dedicada à pintura portuguesa na instituição parisiense é plausível: “A recente mostra sobre A Idade de Ouro do Renascimento Português no Louvre em 2022, parece-me um sinal encorajador para o reconhecimento da arte portuguesa em Paris”, conclui.
Quem sabe, talvez possamos um dia visitar, em Paris, uma grande exposição intitulada “Os Esplendores da Pintura Portuguesa”…
Didier Caramalho
« Il faut ouvrir les portes de la peinture portugaise à l’international » – Philippe Mendes