Análise à vitória de António Costa e aos resultados das legislativas portuguesas

Publié le 7 octobre 2019

Marcelo quer um Governo para quatro anos? “Vamos ver se é possível”. Costa não chegou onde queria mas fez o que mais gosta: política pura. Convidou a esquerda toda para se sentar à mesa. Dispensou a direita com frieza olímpica. E fez da estabilidade o seu slogan “para quatro anos”. Marcelo paga para ver. Com dez partidos no Parlamento, o CDS de rastos e Rio sem lugar no filme, a noite da ‘geringonça 2’ não é o que parece

Foto TIAGO MIRANDA

Alfa/Expresso, por Ângela Silva

Percebeu-se o que aí vinha quando, mal saíram as primeiras projeções, dirigentes de peso do Partido Socialista saltaram a falar de “estabilidade”: “Estamos em condições de garantir que o PS encontrará uma solução de Governo para quatro anos”, disse Ana Catarina Mendes. “Temos condições para garantir a estabilidade”, confirmou Pedro Nuno Santos. E assim abriram caminho para António Costa fechar a noite eleitoral com o anúncio da fórmula mágica: se a maioria absoluta falhou, ele tentará uma ‘geringonça’ aditivada. Falará com o BE, o PCP, o PAN e o Livre (o leque de escolhas alargou-se com um Parlamento que passará a acolher dez partidos com a entrada do Livre, do Chega! e da Iniciativa Liberal). Resultará? “Vamos ver se é possível”. Aviso à navegação: “Cada um assumirá as suas responsabilidades”.

O primeiro-ministro percebeu o recado do Presidente da República, que na véspera também aditivou a habitual mensagem de apelo ao voto em dia de reflexão. Desta vez, Marcelo Rebelo de Sousa disse mais, antecipou quatro anos ” decisivos”, com “grandes dificuldades”, com maus ventos económicos e reformas inadiáveis (chegou a pedir uma Segurança Social com sustentabilidade mais “duradoura”). E fez saber que tem pressa em dar posse ao novo Governo por causa do Brexit.

António Costa não perdeu tempo a explicar como pensa descalçar a bota. Não contará com a direita, que tratou de retirar do filme com uma frieza olímpica, respondendo com um ‘não, obrigado’ ao piscar de olho que Rui Rio lhe enviara minutos antes. O líder do PSD reagiu como um herói, por ter resistido às piores previsões que lhe anteviam pouco mais de 20% para, afinal, acabar com 27,9% – “Não há desastre nenhum, os que previram a hecatombe manifestamente falharam”, afirmou. E daí passou para um discreto mas óbvio sinal de disponibilidade para Costa.

Como? Simples: “Eu não sei o que o PS quer fazer. O PS ganhou e tem que ter a iniciativa. Em função do que o PS quiser fazer, iremos analisar. Mas sempre em consonância com aquilo que eu sempre disse”. E o que é que Rio sempre disse? Que queria pactos de regime estruturais com o PS. E qual é a resposta de Costa? Não, obrigado! Aparentemente, o primeiro-ministro não perdoou a Rio ter dito, sobre Tancos, que era difícil ele (Costa) não saber da marosca montada para encontrar as armas roubadas. As relações para já estão estragadas. Mas Costa também nunca admitiu ver no PSD quem lhe viabilizasse o Governo.

“O PSD e o CDS tiveram a maior derrota histórica da direita em Portugal. Uma derrota que expressa seguramente o facto de não terem apresentado uma alternativa credível ao PS – afirmou o PM – e também a rejeição que os portugueses fazem de uma campanha baseada em casos e ataques pessoais”. Nada feito. Conversa acabada à direita. O diálogo segue à esquerda.

Costa vai falar com o BE e o PCP, com recados à cabeça. Se os parceiros têm caderno de encargos para negociar, ele também tem os seus. E há princípios que vieram para ficar, a começar na fidelidade à Europa, nas “contas certas” e na determinação em continuar a cortar na dívida e no défice. Mais difícil, portanto, do que sanar os alegados danos do passismo, coisa que funcionou como cimento na primeira ‘geringonça’.

Na segunda, Costa quer diversificar parceiros – vai puxar o PAN e o Livre. Há quem chame a isto dividir para reinar mas o primeiro-ministro não deu a coisa como fácil. Pelo contrário, foi cauteloso: “A nossa vontade firme é garantir quatro anos de estabilidade para Portugal. Vamos ver se é possível”. Só que apenas PAN e Livre não chegam para formar maiorias (Costa terá de contar, pelo menos, com a abstenção de um dos seus antigos parceiros).

Marcelo agradece a tentativa de procurar uma solução estável e vai acompanhá-la de perto. Ouve os partidos já na terça-feira. E prepara-se para uma legislatura exigente e animada, também para o Presidente da República. Sobretudo pelo estado em que a direita, a sua família política, saiu destas eleições: o CDS de rastos com a líder demissionária e o PSD derrotado e com o líder com a cabeça a prémio no partido. Com a esquerda a preencher quase dois terços dos lugares no Parlamento, Marcelo acabará, inevitavelmente, por ver o seu papel de contrapeso reforçado.

Os novos partidos surpreenderam, até as próprias sondagens. O PAN cresce para quatro deputados, o Livre, o Chega! e o Iniciativa Liberal elegem um parlamentar cada um e assim entram no Parlamento. Vinte anos depois do nascimento do BE, o xadrez político-partidário volta a mexer. Devagarinho, mas vai. Santana Lopes não conseguiu chegar lá. Falta saber, depois da demissão de Assunção Cristas, quanto tempo resistirá Rui Rio. O PSD tem diretas no arranque do próximo ano. A direita vai parar para balanço. Marcelo não conseguiu a alternativa clara e forte que pediu durante quatro anos. A legislatura promete.


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