Antes do boom do rock português, os Jafumega já faziam fogo. Eugénio Barreiros (1959-2020) esteve lá desde o início

Publié le 14 janvier 2020

Com o 25 de Abril ainda fresco, os Jafumega ajudaram a erguer, a partir do Porto, um movimento que tinha nos Taxi, GNR ou Heróis do Mar outros agentes valiosos. No dia em que é notícia o falecimento do teclista Eugénio Barreiros, recuperamos a história da banda portuense, contada pelos seus principais protagonistas em 2013. O regresso aos “fabulosos anos 80”, uma década “irrepetível” em que o grupo dos irmãos Barreiros chegaram a ‘abrir’ para os U2.

Praia da Aguda, Gaia, março de 2013. É nos escritórios da agência Chave do Som, responsável pelos concertos de regresso dos Jafumega, em maio, que a BLITZ se encontra com quatro dos seis músicos da banda de «Nó Cego». O dia é de inverno rigoroso – a certa altura, alguém teme que «uma faneca» entre a voar pela sala de reuniões, projetada pela força do mar, mesmo ali à frente, mas as memórias correm calorosas e pacíficas. Os Jafumega, cuja formação fica completa com os dois irmãos de Mário Barreiros, Eugénio (teclados) e Pedro (baixo), existiram na primeira metade da década de 1980 e esta baliza temporal é parte obrigatória da conversa que se estende tarde fora. Noutra época, esta banda não teria sido a mesma coisa – mas os anos 80 em Portugal também não teriam sido os mesmos sem os Jafumega, é a conclusão que parece ressaltar das memórias cruzadas.

«Ainda estava fresquinha, a Revolução», lembra-se Mário Barreiros (guitarra), hoje um produtor consagrado (no dia da entrevista, teve de encontrar tempo entre trabalho de estúdio com a fadista Cuca Roseta e a partida para a Austrália, onde tinha três concertos «ao serviço» dos The Gift, com quem toca bateria). «Todos temos memórias incríveis dessa altura. Foi uma época fabulosa e irrepetível, que não tem nada a ver com o que se passa hoje». Os companheiros corroboram, salientando que os anos 80 «foram anos de muitas descobertas, todos os dias se descobriam coisas!». Particularmente conversador, José Nogueira, saxofonista da banda, oferece um enquadramento ao surgimento dos Jafumega, na viragem da década de 1970 para a de 1980: «Portugal viveu fechado até ao 25 de Abril. Meia dúzia de nós viajámos alguma coisa, mas o grosso da população não sabia o que se passava no mundo. O país parecia que tinha arame farpado à volta». A taxa de analfabetismo «monstruosa» e a iliteracia generalizada faziam de Portugal um lugar consideravelmente diferente, mas ao mesmo tempo abriam porta àquilo a que hoje se chamaria empreendedorismo.

«De repente, o país abre as portas ao mundo e o boom do rock português é uma consequência disso, com [o crescimento das] artes, do cinema, do teatro. Vivíamos uma altura privilegiada, de abertura: tudo era novo e nós também!», exulta José Nogueira. Perante as contrariedades e a inexistência de infraestruturas, sobretudo a nível dos espetáculos ao vivo, os Jafumega arregaçavam as mangas e faziam-se à vida: «Se não havia PA, nós inventávamos um! Andávamos com ele às costas, e um dia ele queimou-se num concerto e começa a deitar fumo… Improvisa-se, arranja-se, desenrasca-se».

 

Jafumega em 1983

Jafumega em 1983

ARQUIVO GESCO

No meio musical da época, os Jafumega eram conhecidos não só pelo grande domínio instrumental, como pelo facto de, à semelhança dos UHF, terem construído a sua própria estrutura. «Conhecíamos as outras bandas e encontrávamo-nos nos bastidores. Fazíamos muita coisa em conjunto», recorda Mário Barreiros. «Pisávamos os mesmos palcos de Xutos & Pontapés, Heróis do Mar, Sétima Legião, Street Kids, GNR, Grupo de Baile…». Mas a independência do sexteto do Porto era um dos fatores que faziam a diferença. «As pessoas não fazem ideia que na altura não havia infraestruturas: não havia managers, agentes, companhias de aluguer de PA ou de [sistemas de] som e luz», enumera José Nogueira. «Os roadies eram aos milhares mas não era para trabalhar, era para entrar de borla nos concertos!», ri Álvaro Marques, baterista. «Nós, o pessoal do boom do rock português, inventámos tudo. Tal como os UHF, tínhamos uma estrutura própria: fazíamos de managers, tratávamos dos contratos, tínhamos um PA, luzes próprias, técnicos que andavam sempre connosco. Algumas dessas coisas deram origem a coisas que continuaram», congratula-se José Nogueira, salientando então o «grande desenvolvimento da tecnologia» verificado no início dos anos 80. «Quando começámos, praticamente não havia sintetizadores; todas essas coisas começaram a aparecer de 1980 em diante. E nós, sempre que podíamos, agarrávamos tudo o que aparecia! Até ao nível tecnológico desbravámos bastante caminho, desenvolvendo técnicos de som e técnicas de gravação».

Quando nasceram como banda, porém, o boom do rock português, cantado na língua de Camões, ainda estava em incubação. «Nós nem sabíamos quem era o Rui Veloso!», contam, entre risos. Ainda que bastante jovens, os Jafumega tinham já vasta experiência musical, alguma dela anterior a 1974: os irmãos Barreiros (Mário, Pedro e Eugénio) tinham pertencido à banda jovem Mini-Pop, criada pelo pai Barreiros, fundador também da Escola Jazz do Porto. Tanto Mário como Pedro haviam acompanhado José Nogueira no quarteto de António Pinho Vargas, enquanto Pedro e Álvaro Marques tinham tocado na banda rock Psico. A variedade de influências e a familiaridade com a linguagem jazz faziam dos Jafumega uma banda de perfeccionistas dados à improvisação, recordam agora os músicos, três décadas depois do fim.

«A ideia base das canções, normalmente, saía de cada um de nós», explica José Nogueira. «A maior parte dos temas são do Eugénio, do Mário ou meus. O Luís [Portugal, vocalista] também tem alguns, mas a maior parte saiu deste trio. E o Eugénio é um compositor incrível!», elogia, referindo-se ao autor do maior êxito dos Jafumega, «Ribeira». «Nós saíamos com a ideia base e depois o tema era acabado em conjunto, com contribuições: na bateria o Álvaro é que sabe, no baixo o Pedro é que sabe. Há muita discussão e muita improvisação pelo menos – 50 por cento do grupo são músicos de jazz, o que faz com que tenhamos uma música qualquer e comecemos a fazer outra coisa por cima, naturalmente. Os músicos rock não têm muito essa tradição. Nós encontrávamos sempre qualquer coisa diferente para fazer por cima das músicas, elas nunca estavam acabadas», reconhece.

José Nogueira, Eugénio Barreiros, Álvaro Marques, Mário Barreiros, Luís Portugal e Pedro Barreiros (esq-dir)

José Nogueira, Eugénio Barreiros, Álvaro Marques, Mário Barreiros, Luís Portugal e Pedro Barreiros (esq-dir)

ARQUIVO GESCO

PRIMEIRO FOI O VERBO (EM INGLÊS)

No primeiro álbum, “Estamos Aí”, lançado em 1980, os Jafumega já obedeciam a esta dinâmica de composição, mas as músicas eram cantadas em inglês. «É preciso perceber que, nessa altura, ainda não havia o boom do rock português», sublinha José Nogueira, interrompido por Mário Barreiros: «Até o Rui Veloso cantava em inglês!». Nogueira retoma a narrativa: «Nós nem conhecíamos o Rui. Estávamos em estúdio a gravar o disco, praticamente com tudo pronto, quando foi lá alguém que conhecíamos ouvir [o álbum] e nos disse: vem aí o disco de um puto giro, cantado em português. Um tipo do Porto». Nem o facto de os Jafumega serem, também, naturais da Invicta fazia com que conhecessem o futuro Chico Fininho. «Esse nosso primeiro disco foi gravado numa altura em que não havia em Portugal a tradição de fazer grupos rock. E muito menos de editar discos». O que levou, então, os seis amigos a arriscar uma carreira na música? «Nós metemo-nos nisso porque éramos músicos, porque gostávamos de tocar e porque era essa a nossa vida. Mas foi complicado, porque ninguém gravava nem queria gravar», confessa José Nogueira. «Passámos imenso tempo a tentar sobreviver, sem concertos, sem discos, sem nada. Fomos compondo e as letras saíam em inglês, porque era o que se fazia na altura. Só depois de o Rui Veloso ter rebentado com o Ar de Rock e as editoras terem saltado e aproveitado esse sucesso, abrindo as portas a outros grupos rock a cantar em português, é que o fenómeno se desenvolveu».

De “Estamos Aí”, a estreia discreta gravada em inglês e editada pela pequena Metrosom, não reza a história dos Jafumega. «O nosso primeiro disco? Ninguém o ouviu. Alguma imprensa gostou, mas o público em geral não», admite José Nogueira. «Eu conheço gente que diz que é o nosso melhor disco!», garante Luís Portugal. «Gente ligada aos media e à rádio. Na altura, foi um disco inovador». Álvaro Marques, que durante a entrevista se mantém sempre atento, tirando até notas num caderno, concede: «é um disco diferente, não há dúvida».

Contudo, o sucesso só bateria à porta dos Jafumega em 1981, com o single «Dá-me Lume». O título não lhe diz nada? É normal, pois o passaporte para o êxito não foi o lado A , mas sim o lado B: «Ribeira», imortalizada no cancioneiro rock português pelo refrão «A ponte é uma passagem / para a outra margem».

«É uma música do meu irmão Eugénio, que tinha uma série delas bestiais», entusiasma-se Mário Barreiros. «A letra era do José Soares Martins, e o Eugénio musicou-a». Este era, habitualmente, o modus operandi da banda: «normalmente o José Carlos Martins ou o Carlos Tê traziam as letras e nós musicávamos por cima. Raramente era ao contrário», lembra-se José Nogueira. O autor da letra de «Ribeira» foi, de resto, apresentado aos Jafumega pelo «comparsa» de Rui Veloso, Carlos Tê.

«O Zé era amigo do Carlos Tê», conta Luís Portugal. «Ambos trabalhavam no Banco de Portugal… faziam-se coisas boas no Banco de Portugal, na altura (risos). E como ele escrevia sobre o Porto tanto a “Ribeira” como o “Kasbah”, do Tê, são sobre o Porto nós [gostámos]. Ainda por cima eram letras bem escritas!».

A mudança do português para o inglês, que começou com o single de 1981 e se manteve nos dois álbuns seguintes, “Jafumega” e “Recados”, implicou também uma mudança no registo de Luís Portugal. Foi aqui que o cantor arriscou pela primeira vez um falsete que não deixou de gerar dúvidas. «Na altura dava trabalho [cantar em português], porque soava estranho a toda a gente!», admite Mário Barreiros. «Causava estranheza a nós mesmos, no início. Pensávamos: vamos mesmo aparecer com isto assim? Se calhar não vai resultar….», completa Luís Portugal. «Eu entretanto já tinha aprendido alguma coisa [no que toca a cantar], e gosto de cantar em português, mas a nossa língua não é a mais musical. Temos muitas vogais fechadas, não é fácil. Mas, depois de lhe apanharmos o jeito, dá imenso gozo cantar na nossa língua!». José Nogueira resume: «não havia referências [de rock cantado em Português]. Mas tivemos a sorte de encontrar gente boa a escrever. Gente musical. O Carlos Tê, ao escrever, já tinha muita musicalidade. Uma letra dele, de um certo ponto de vista, já tem música», considera, lembrando que é Tê o autor de «Chico Fininho». «E isso ajudou-nos imenso».

‘Ribeira’, um dos êxitos dos Jafumega, da autoria de Eugénio Barreiros:

 

 

DA RIBEIRA AOS U2

Nos seus quase quatro minutos, «Ribeira», canção de cadência algo misteriosa, inspirada pela zona ribeirinha do Porto, foi, mais do que um passaporte para o estrelato, um balão de oxigénio para os Jafumega. «Permitiu-nos ter concertos, funcionar. Viver como músicos e como grupo, senão tínhamos morrido ali», garante José Nogueira. Depois de o primeiro álbum ter passado despercebido, o êxito do single de 1981 ofereceu aos Jafumega um contrato com a Polygram, o que fez «toda a diferença» em termos de divulgação. «O primeiro disco foi gravado para uma pequena editora [Metro-Som]. A “Ribeira” permitiu-nos dar o salto para uma editora maior, que tinha outras condições, como mais tempo de estúdio. Mas, mesmo assim, era sempre a correr!», afiança Luís Portugal. À época, ilustra José Nogueira, «só havia três ou quatro estúdios profissionais que custavam muito dinheiro. E as editoras tinham aberto a porta ao rock português, mas uma porta pequenina!», esclarece entre risos. «Não havia muita massa. O segundo e o terceiro álbum foram gravados em cinco dias, misturados em dois dias e masterizados numa manhã manhosa. Era assim que se trabalhava naquela altura: não havia estúdios caseiros».

A vários níveis, há um antes e um depois de «Ribeira» no percurso do Jafumega. Nos concertos em Portugal, a reação do público era geralmente positiva, «porque nós tocávamos sempre com muita energia. Nunca tocámos para nós, mas sim para quem nos está a ver. Havia uma comunicação», diz José Nogueira. «Mas houve um fenómeno curioso de que nunca me vou esquecer: andávamos a fazer concertos um pouco por todo o lado e já tocávamos a “Ribeira”, mas ainda não era conhecida. Um dia, no Algarve – penso que em Vila Real de Santo António ou Monte Gordo – tocámos a canção e de repente começa toda a gente a pinchar, aos berros. Uma coisa absolutamente extraordinária!».

O segredo da euforia residia no facto de, na semana anterior, «Ribeira» ter passado no programa da RTP, Vivamúsica. «Foi incrível a diferença da receção das pessoas, antes de as pessoas conhecerem a música e depois de ela passar na televisão. Isto mostra o quão importante foi o papel da televisão, da rádio e da imprensa em geral para a promoção e divulgação do rock em Portugal nessa altura. Sem isso, tinha sido absolutamente impossível».

Curiosamente, «Ribeira» não faz parte do alinhamento do álbum de 1982, onde habitam outros êxitos da banda, como «Kasbah», «Nó Cego» ou «Liquidamos Existência». E foi com esse disco no bolso que os Jafumega viveram um verão memorável, tocando na Festa do Avante para «um mar» de gente, ou no festival de Vilar de Mouros, imediatamente antes dos U2. «Eles estiveram atrás de nós, a ver e a ouvir o nosso concerto», recorda-se Álvaro Marques. «E foram muito simpáticos! Antes de entrarmos em palco, vieram dar-nos um abraço e dizer: que corra bem!», quer José Nogueira adicionar. Na altura entre os álbuns “October”, de 1981, e “War”, de 1983, os U2 eram, como conta Luís Portugal, risonho, «chefes, mas pouco… mas já tinham peso!». Mário Barreiros contribui para as memórias galhofeiras: «os U2 até perguntaram ao [nosso fã] José Camilo “Quem é esta banda?”. Logo a ele, que não sabia inglês, só francês». Ainda longe do estatuto de gigantes da música mundial, os irlandeses não deixavam de ser os cabeças de cartaz e o estatuto fez-se sentir. «O manager deles foi muito chato connosco», revela José Nogueira. «Disse-nos: tocam este tempo e nem mais um minuto! O público a pedir para nós tocarmos mais, e ele correu-nos para fora do palco».

Na Festa do Avante, em 1982, onde apanharam “um susto” com a enchente que os esperava

Na Festa do Avante, em 1982, onde apanharam “um susto” com a enchente que os esperava

ARQUIVO GESCO

Nesse mesmo verão de 1982, os Jafumega tremeram uma segunda vez, quando no anfiteatro natural do Alto da Ajuda, em Lisboa, se viram a braços com uma enchente indescritível. O evento era a Festa do Avante e as recordações vivem até hoje. «Tínhamos estado a fazer soundcheck, à tarde, e não estava lá ninguém, só meia dúzia de gatos pingados », diz José Nogueira. «Estava tudo nos chouriços e nos canecos!», brinca Álvaro Marques. «À noite entrámos e era só gente, como se fosse um mar a vir por cima de nós. Eu tremi completamente, apanhei um susto terrível», admite José Nogueira. «Mas logo a seguir foi bestial!».

Nas viagens dos Jafumega pelos caminhos de Portugal, a banda criou, no dizer do baterista Álvaro Marques, «muitas sintonias e afinidades com várias localidades na província: Beira Alta, Trás-os-Montes, Minho, a zona de Coimbra… andávamos sempre a calcorrear essas praças». A identificação do público com as canções dos portuenses passaria muito pelo facto de serem cantadas em português, acredita José Nogueira.
«Uma das razões pelas quais o boom do rock português se deu foi por ser cantado em português. As pessoas entendiam as letras! Num país com uma taxa de analfabetismo como a que tínhamos, muitas das letras em inglês as pessoas nem as percebiam». Ao terceiro e último álbum, “Recados”, lançado em 1983, os Jafumega optaram por explorar esta ligação ao Portugal «real», sem todavia obterem muito sucesso. «Já que cantávamos em português e tínhamos uma música tradicional riquíssima, tentámos seguir esses caminhos», expõe Luís Portugal.

Entusiasmado, José Nogueira desenvolve: «A que propósito é que havíamos de fazer uma música influenciada a 100 por cento pelo que se passava em Londres, que era a Meca, quando vivíamos aqui? Tínhamos essa discussão permanentemente. Então se vivemos em Portugal, se nos encontramos no dia-a-dia nos mercados, nos restaurantes, nas ruas, nos transportes públicos com portugueses, com gente que vive problemas diferentes de quem vive em Londres, porque é que a nossa música há de ser igual à deles? [Concluímos que] não fazia sentido e que iríamos aproveitar as novas tecnologias, os instrumentos modernos, mas também ser permeáveis àquilo que nos rodeava».

Apresentado pelo single «La Dolce Vita/ Romaria», Recados acabou por não ter «a receção que deveria ter tido», defende uma vez mais José Nogueira. «Acho que é o nosso melhor disco, onde chegámos ao amadurecimento de uma série de ideias, como a conjugação com a Música Tradicional Portuguesa. Temos temas lindíssimos, como “Rústica” e “O Outro Dia do Ano”, que foram pouco divulgados e conhecidos». Estariam os Jafumega à frente do seu tempo? «Se calhar eram coisas que não estavam na moda na altura», admite o músico. «E se tivessem aparecido uns anos mais tarde teriam tido mais recetividade».

 

Na cozinha do restaurante O Churrasquinho, da mãe dos irmãos Barreiros. Ao centro, Pedro Barreiros

Na cozinha do restaurante O Churrasquinho, da mãe dos irmãos Barreiros. Ao centro, Pedro Barreiros

ARQUIVO GESCO

O FOGO NÃO SE APAGOU

Em 2013, os Jafumega reuniram-se para concertos no Porto e em Lisboa, recuperando os êxitos de outrora. Na altura, apresentavam assim os concertos:

«Não é que estejamos a fazer grandes alterações: estamos é a tocar as músicas à nossa maneira, hoje em dia. E sentimo-nos confortáveis. Às vezes havia gente que nos dizia: os temas ainda hoje soam atuais! E a prova parece estar aqui: trinta anos depois, depois de termos passado pelos jazzes e pelas músicas todas que andámos a fazer, ainda gostamos das canções». Mário Barreiros, que nos últimos anos tem produzido incontáveis artistas, gostou «de rever todas as músicas. Não sei se é por serem nossas, mas o “Nó Cego” ou a “Ribeira” ficam para sempre, são intemporais». Num misto de nervosismo e excitação, «tudo misturado!», os ensaios têm-se prolongado de forma gostosa, o que, para Álvaro Marques, é sinal de dedicação à causa. «Nós marcámos que os ensaios acabavam à meia-noite e saímos sempre às duas, duas e meia apesar dos vizinhos».

Nos casos de maior popularidade, como «Ribeira», as canções subirão a palco como vieram ao mundo, sem grandes alterações. «Tocamos um bocadinho mais descontraídos do que há 30 anos, com outra segurança, mas quem ouvir reconhece imediatamente. Mas há outras, como “Sei que Pareço um Ladrão”, a que demos uma volta bastante grande».

Esta é, de resto, uma das letras que, para os Jafumega, conservam maior atualidade. «A “Latin’América” menos, porque a América Latina mudou imenso nestes 30 anos. A “Sei que Pareço um Ladrão”, [com um verso] do António Aleixo, ou a “Só Sai a Ti (Society)” são mais atuais, tal como a “Liquidamos a Existência” ou a “Guida Peituda” [inspirada em Margaret Thatcher], se for de Inglaterra para a Alemanha… No fundo, os problemas subsistem. Aquilo que o Eça de Queirós ou o Aquilino [Ribeiro] diziam continua a fazer sentido hoje. A choldra da altura é a mesma choldra de hoje», rematam.

Apesar do muito que se evoluiu na música em Portugal, desde os tempos em que os Jafumega dominavam as ondas radiofónicas, a banda continua a assistir a concertos «em que a qualidade do som é mais ou menos, para não ser mauzinho», brinca José Nogueira. «E para nós um concerto tem de soar quase como um disco, em termos de qualidade de som. Claro que a prestação é completamente diferente, porque [contempla] toda a energia e improvisação. Mas, se tudo correr bem, as pessoas vão ter, também a esse nível, uma surpresa engraçada». Acima da nitidez do som e do perfeccionismo que norteia o grupo, porém, estará o prazer. «Nos ensaios, começámos a tocar as músicas que já não tocávamos há uma data de tempo e gostámos delas», assegura Mário Barreiros. «Se não gostássemos, não valia a pena».

Eugénio Barreiros (1959 - 2020)

Eugénio Barreiros (1959 – 2020)

JORGE GOMES

Publicado originalmente na BLITZ de abril de 2013

 

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