“Às vezes o PSD parece a gaiola das malucas”

Publié le 10 octobre 2019

Morais Sarmento: “Às vezes o PSD parece a gaiola das malucas”. O vice-presidente do PSD acredita que a estratégia de Rui Rio foi a acertada e que não é responsável avançar para uma luta fratricida. Em entrevista, Morais Sarmento critica Montenegro e os putativos candidatos, relembra a ascensão de Durão Barroso mesmo depois de duas derrotas eleitorais e acena com uma crise governativa num horizonte próximo

 

FOTO NUNO BOTELHO

 

 

Alfa/Expresso. Por Miguel Santos Carrapatoso

Nuno Morais Sarmento considera que os resultados nas europeias e nas legislativas não são “impeditivos” para a continuidade de Rui Rio na liderança do PSD. Mesmo reconhecendo que o score eleitoral de domingo foi “curto”, o vice-presidente do partido acredita que a estratégia até aqui seguida é a correta e que não há ninguém com um perfil mais indicado do que Rio para seguir na presidência social-democrata.

Em entrevista à RTP3, Morais Sarmento salvaguardou que a decisão de Rui Rio de se recandidatar ou não cabe ao próprio, deixando, ainda assim, uma garantia: “Sei que Rui Rio entende como eu que seria absolutamente irresponsável que houvesse decisões ou demissões antes de haver Governo e de sabermos que Governo”.

“Rui Rio tomará a sua decisão consoante a utilidade que ele vir para o país na sua permanência ou na sua saída da direção do PSD. Nunca vi ninguém ter esta noção. Para ele é cartesiano”, acrescentou. Sinais importantes deixados pelo vice de Rio, que se referia à vocação (e objetivo assumido) do líder social-democrata para chegar a grandes reformas regime, neste caso com o PS.

Ao mesmo tempo, no entanto, Morais Sarmento reconheceu que essa possibilidade – a de o PS procurar o PSD para esses mesmos acordos – é diminuta, uma vez que, ao contrário do que aconteceu na anterior legislatura, este será declaradamente um “governo das esquerdas”.

Ou seja, esse parece ser um beco sem saída. A outra hipótese é esperar que uma crise económica (e por arrasto política) venha a derrubar António Costa – à semelhança do que aconteceu com António Guterres, exemplo que Morais Sarmento, então um dos mais próximos de Durão Barroso, fez questão de relembrar pelo menos duas vezes. “Basta as taxas de juro subirem 4 ou 5 pontos e o país está a pedir ajuda a Bruxelas. Nesse dia quero saber como é que os portugueses vão olhar para quem nos esteve a governar”, sugeriu o social-democrata.

Apostado num prazo de validade muito curto para o próximo Governo, Morais Sarmento lembrou precisamente a disputa Barroso-Guterres. “Durão Barroso perdeu as europeias, perdeu as legislativas e em dois anos estávamos no pântano e na demissão de António Guterres.”

RIO TEM MAIS “BAGAGEM” QUE MONTENEGRO

Voltando ao presente ou, pelo menos, ao passadMoraiso mais recente. Em relação ao resultado de domingo, que embora “curto” não foi “desastroso”, Morais Sarmento recuperou um argumento já ensaiado por Rui Rio na noite eleitoral: a percentagem de votos alcançada nos concelhos de Lisboa (25%) e no Porto (34%) é muito superior à alcançada nas autárquicas de 2017 – as últimas eleições disputadas durante a liderança de Pedro Passos Coelho. “A estratégia de recolocação ao centro do PSD e na fase final a pessoa de Rui Rio foi aquilo que permitiu evitar um resultado próximo das autárquicas”, argumentou.

Recuando aos tempos em que foi um dos mais próximos conselheiros de Durão Barroso, Morais Sarmento argumentou que até aí, e apesar da oposição de Pedro Santana Lopes e Luís Marques Mendes (desafiaram Barroso na sequência da derrota contra Guterres, em 1999), o então líder do PSD teve tempo “para construir” um projeto. Agora não. “Às vezes a disputa interna no PSD parece a gaiola das malucas”, disse.

Mas para Morais Sarmento, que nesta entrevista a Vítor Gonçalves não escondeu a pouca simpatia que nutre por Marques Mendes, até eles – o atual comentador da SIC e Pedro Santana Lopes – estão “muito longe do nível desses candidatos”, os putativos que avançarão contra Rio.

No dia em que Luís Montenegro formalizou essa pretensão – Miguel Pinto Luz fá-lo-á em breve -, Morais Sarmento não esqueceu o antigo líder parlamentar do PSD. “Em termos de bagagem, reconheço outra competência técnica, outra experiência outra capacidade de relação com os portugueses a Rui Rio do que a Luís Montenegro”, disse.

Além disso, Morais Sarmento disse não reconhecer qualquer “estratégia alternativa” a Montenegro a não ser a de insistir que Rui Rio deveria ter feito uma oposição “mais agressiva”. “Vimos outros a optar por esse caminho e terem mais resultados”, provocou o vice-presidente, referindo-se a Assunção Cristas e ao CDS.

Quem também não se livrou de uma crítica implícita foi Miguel Morgado, outro dos putativos candidatos à sucessão de Rio, que na terça-feira deu uma entrevista à SIC defendendo, mais uma vez, que deve ser o PSD a promover a refundação da direita. “Há até quem entenda que temos de refundar a direita e que o PSD é um instrumento. E eu digo: não façam filhos em barriga alheia. Façam isso em partidos de direita”, atirou Sarmento.

Numa entrevista em que preferiu não comentar se as declarações de Cavaco Silva eram ou não um puxar de tapete a Rui Rio, Morais Sarmento não resistiu em dar uma alfinetada ao atual Presidente da República. “Mesmo nos momentos em que o Governo viveu dificuldades Marcelo Rebelo de Sousa foi um conforto.”


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