‘Coletes amarelos’: Violência regressa a Paris, Ministério atacado e ministro evacuado

Publié le 5 janvier 2019

Perturbado pelos protestos, que neste sábado voltaram a aproximar-se de um clima de insurreição popular, o Presidente Emmanuel Macron vai escrever uma carta aos franceses para tentar convencê-los a participar num “debate nacional” sobre as reivindicações dos “coletes”. Um ministério foi atacado, o portão destruído e o ministro teve de ser evacuado

SAMEER AL-DOUMYA

Alfa/Expresso. Por Daniel Ribeiro

Às 19 horas de Paris, menos uma hora em Lisboa, veículos continuavam a ser incendiados na zona da avenida dos Campos Elísios, na principal sala de visitas de França, onde também ainda se verificavam confrontos.

O clima era de insurreição. O ministério de Benjamin Griveaux, porta-voz do executivo, que chamara ontem aos manifestantes de “agitadores políticos que apenas querem a insurreição e derrubar o Governo” foi atacado. O portão do ministério foi vandalizado, manifestantes chegaram a entrar no pátio e o ministro e seus funcionários tiveram de ser evacuados. Nalgumas regiões outros símbolos da República também foram atacados hoje e nos últimos dias.

A essa hora, a polícia ainda não tinha completamente controlado a situação na capital, onde se verificaram confrontos e incêndios desde o início da tarde em diversos bairros, todos eles históricos e turísticos.

Os problemas principais verificaram-se nos Campos Elísios e, também, junto aos museus do Louvre e de Orsay e na avenida de Saint-Germain, que liga a Assembleia Nacional ao “quartier latin”, o quarteirão onde eclodiu a revolta estudantil de 1968 que, então, abalou a França e o mundo.

QUATRO MIL MANIFESTANTES NAS RUAS DA CAPITAL

Durante este sábado, no Ato 8 do movimento dos “coletes”, ou seja, o oitavo sábado consecutivo de manifestações desde o início do inédito protesto nascido na internet, cerca de quatro mil manifestantes (segundo números da polícia) desfilaram em Paris.

Ainda não foram contabilizados todos os manifestantes deste sábado em França, mas os desfiles foram também importantes nas cidades da província, onde se verificaram igualmente por vezes incidentes com a polícia.

Na capital, verificaram-se confrontos graves em pontes e nas margens do rio Sena, onde um grande barco turístico, com restaurante, foi também incendiado. Barricadas e veículos foram incendiados em diversos locais mas, desta vez, foram até agora registados poucas destruições e ataques de lojas e outros estabelecimentos comerciais.

Com estas novas manifestações, as primeiras do ano de 2019, os “coletes amarelos” surpreenderam os observadores, que previam uma menor mobilização depois das festas do Natal e do fim do ano e, igualmente, depois das cedências do Presidente Emmanuel Macron (no valor de 10 mil milhões de euros) aos “coletes”.

Nesta sexta-feira, o Governo tinha apostado na marginalização do movimento e na repressão. Benjamin Griveaux, ministro e porta-voz do executivo, disse ontem, designadamente, que depois das recentes cedências e do lançamento de um “debate nacional” de três meses sobre as revindicações, apenas restavam “agitadores políticos que querem derrubar o Governo”. Griveaux garantiu que a lei seria aplicada – “a lei, nada mais que a lei, só a lei”, afirmou.

ONZE MORTOS E 2500 FERIDOS EM MÊS E MEIO DE PROTESTOS

O protesto dos “coletes” já provocou, em mais de mês e meio de manifestações, 11 mortos (um devido à explosão de uma granada e os outros em acidentes), cerca de 2500 feridos (a maioria manifestantes, mas também polícias), e levou aos tribunais centenas de pessoas.

Segundo uma sondagem, 55% dos franceses continuavam ontem, sexta-feira, a apoiar os “coletes amarelos”.

As palavras de ordem mais ouvidas, hoje, em Paris, são as habituais: “Macron demissão”, “RIC” (Referendo de Iniciativa Cidadã) e outras relacionadas com o aumento do poder de compra e a fiscalidade.

Emmanuel Macron, que reconheceu há menos de um mês que terá sido demasiado sobranceiro com os seus compatriotas, a quem chamou “irredutíveis gauleses refratários à mudança”, aposta no “debate nacional” para encontrar uma saída para a crise.

Nos seus votos de bom ano novo aos franceses indicou que lhes vai escrever uma carta com as suas propostas para o debate. Mas os “coletes”, nas manifestações deste sábado, indicavam que esperavam pouco dessa iniciativa.

“Macron e o Governo sabem bem o que queremos, não é preciso debate: queremos participar na vida democrática com o RIC (Referendo de Iniciativa Cidadã), queremos aumentos das pensões e dos salários mais baixos, queremos a reposição do Imposto Sobre a Fortuna, que ele revogou, queremos mais igualdade e baixa dos impostos sobre os produtos de primeira necessidade”, dizia um “colete”, aos jornalistas, na Praça da Câmara de Paris, alguns minutos antes do início de mais uma tarde e de um início de noite de confrontos na capital.


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