Covid-19/Cuidados individuais: o que temos mesmo que fazer porque a vida depende disso

Publié le 18 mars 2020

in JN.PT por José Miguel Gaspar

Os pneumologistas Filipe Froes e Raquel Duarte respondem às perguntas essenciais sobre o uso de máscaras, de luvas, qual a distância social que temos que manter, e como é a nossa conduta em casa. Exemplo: devemos ter agora a roupa de casa e a roupa da rua. Há comportamentos que temos mesmo que ajustar – a nossa vida e a dos outros depende disso.

“Atualmente, vivemos em pleno momento de transmissão ativa na comunidade e sem que esteja identificado quem tem o coronavírus e quem não o tem”, alerta o pneumologista Filipe Froes, que integra o Conselho Nacional de Saúde Pública. “Todos podemos contaminar e todos podemos ser contaminados. O risco é real e para todos os locais”.

Ao JN, o especialista avisa que “esta fase de transmissão ativa vai durar várias semanas, não sabemos exatamente quanto tempo, mas a previsão é que se mantenha até finais de abril. Se tudo correr bem…”.

Propagação: o vírus não anda sozinho

“O vírus propaga-se por gotículas de quem estiver infetado, ao espirrar, ao tossir ou mesmo ao falar. A transmissão faz-se por contacto: ou entra diretamente nas vias respiratórias de alguém, se essa pessoa estiver infetada e estiver próxima; ou, depois, tocando-se no vírus, na superfície infetada onde ele estiver a repousar, mesas, roupas, metal, vidro, papel, etc.”, explica Filipe Froes.

“O vírus não voa; é transportado”, continua. “É como o cuspe, no caso um cuspe microscópico. Ora, o cuspe não se movimenta sozinho, é expelido e até um metro de distância – por isso é que a distância social de segurança tem que ser superior a 1 metro, o ideal é mesmo uma distância de 2 metros”.

Luvas: o melhor é não usar

E as máscaras? É preciso saber usá-las

“As máscaras cirúrgicas devem ser usadas pelas pessoas doentes”, entende Raquel Duarte. “São uma barreira às gotículas respiratórias, sendo eficazes para impedir que as pessoas infetadas transmitam o vírus às pessoas com quem contactam. Não são eficazes como medidas de proteção para pessoas saudáveis, para além de que, como frequentemente são colocadas de forma incorreta, podem até aumentar o risco de infeção, porque obrigam a pessoa saudável a tocar o rosto com mais frequência. Se não a colocar adequadamente, se não a vai usar adequadamente e se, ainda por cima, vai passar o dia a mexer na face, vai estar a gastar dinheiro numa máscara que não lhe está a ser útil e até lhe pode aumentar o risco de se infetar”, conclui Raquel Duarte.

Filipe Froes concorda e depois acrescenta outro ângulo: “Direi que nesta altura não se justifica que todos usemos máscaras; só os doentes e os profissionais de saúde. Até por outra razão: o racionamento de máscaras. Lamentavelmente, não há máscaras para todos, não há essa capacidade. Precisávamos de 10 milhões de máscaras, uma para cada português. E não as há, é simples. Aliás, como são descartáveis, cada um deveria ter, digamos, cinco máscaras por dia, o que daria 50 milhões de máscaras para Portugal por dia. Há nessa quantidade? Não há, evidentemente. A capacidade de produção mundial, julgo saber, é de 90 milhões de máscaras por dia”, diz Filipe Froes, “Em Macau deram um conjunto de máscaras à população toda. Mas eles têm essa capacidade, tinham-nas armazenadas, nós não”.

“E deixe-me dizer ainda isto: acho insultuoso ver na rua pessoas com máscaras sofisticadíssimas, máscaras de ambiente clínico, quando há profissionais de saúde, que lidam diariamente com doentes, e que não têm máscaras porque não as há. Os hospitais estão sem recursos!”. E conclui: “Por isso, não desperdicem as máscaras que tiverem, rentabilizem-nas!”.

Vai tossir? Use um papel descartável

“É muito importante seguirmos as outras normas de proteção: lavar muitas vezes as mãos, com álcool ou sabão; cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar; e manter a distância social, que é de dois metros”, diz-nos o médico do Conselho Nacional de Saúde Pública. “Muito importante é seguir as outras normas e a primeira é logo cobrir a respiração ao espirrar ou tossir. O ideal, sabemos agora, não é tossir para a roupa, mas para um pano ou papel descartável que a seguir deitamos fora. Por esta razão: ao tossir para a roupa, se estivermos infetados, estamos a contaminar a roupa onde outros podem tocar”.

Na perspetiva de Raquel Duarte, o ideal é, de facto, tossir ou espirrar para um papel descartável. Mas tossir para o cotovelo fletido é melhor, claro, do que tossir para o ar ou para as mãos: “Deve-se tossir e espirrar quer para um lenço de papel e descartar de imediato para o lixo ou fazê-lo para o braço com cotovelo fletido, nunca para as mãos. Considerando a gestão de risco, o tossir para a dobra do cotovelo é muito mais seguro do que a alternativa de não cobrir a boca ou tossir para as mãos. Sendo uma superfície longe de ideal para o vírus e habitualmente sem grande contacto por terceiros, não é uma preocupação muito relevante”.

Devemos ter agora a roupa de casa e a roupa da rua

“Em casa devemos seguir, como alertava ontem o Hospital de S. João, do Porto, normas de cuidados extra com a roupa para não levarmos roupa infetada para casa que contamine outras superfícies”, expões o médico especialista. “O ideal é termos uma roupa de usar na rua, que tiramos ao entrar em casa, e outra roupa à parte só para usar em casa. Não devemos misturar as duas. Como é também ideal termos áreas descontaminadas em casa. Isto são ações ideais, mas, mais uma vez, não vivemos em mundos ideais… Mas, aprendemos todos os dias com isto, estamos a melhorar todos os dias a nossa capacidade de nos defendermos”.

Raquel Duarte concorda: “Devemos ter uma zona, à entrada da casa, onde possamos deixar a roupa “da rua”. Sapatos, casaco exterior. Ainda à entrada, devemos desinfetar as mãos. Consegue-se assim uma zona identificada de “sujos” e uma zona de “limpos”.

Vírus sobrevive várias horas nas superfícies

“Quanto tempo sobrevive o vírus na roupa e nas superfícies? Sobrevive, provavelmente, várias horas. Talvez até um dia, talvez mais. Não se sabe ainda com exatidão a capacidade de resistência do vírus e a sua taxa de infecciosidade”, avisa Filipe Froes.

Raquel Duarte ajunta: “Sabe-se que o vírus pode persistir no ar durante algumas horas, mas esse fato está sempre dependente de uma série de outros fatores, como ventilação do local, níveis de humidade, valores da temperatura…”.

A médica do Hospital de Gaia/Espinho, acrescenta: “Dos estudos ambientais, retém-se, por ora, a viabilidade do vírus em superfícies lisas (plástico, metal) até 72 horas. Estas serão as melhores condições para o SARS-CoV-2, dado que vírus respiratórios em geral não se dão bem com superfícies que absorvam água e terão menor viabilidade noutras circunstâncias”.

Aprender hoje é ganhar futuro

“A pandemia que vier a seguir a esta será muito importante por causa daquilo que vamos aprender com esta situação que vivemos atualmente”, afirma Filipe Froes. “Vamos tirar hoje muitos conhecimentos, muitos ensinamentos para o futuro sobre aquilo que estamos a fazer de certo ou de errado.

Dou este exemplo: No futuro, teremos que ter reservas estratégicas – tanto de medicamentos como de equipamentos de proteção individual. Temos que ter capacidade de previsão. Temos que ter essa capacidade de produção de medicamentos em terreno europeu para não dependermos só da China. Vamos aprender muita coisa, mesmo muita, com esta pandemia”, finaliza Filipe Froes.

 

Alfa/JN


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