“Fique em casa, mas em França”. Emigrantes sentem-se condenados a uma “dupla pena”

Publié le 9 avril 2020

COVID-19: “Fique em casa, mas em França”. Emigrantes sentem-se condenados a uma “dupla pena”

 

Os apelos resultaram: desde meados de março que o movimento de regresso de emigrantes não parou de diminuir <span class="creditofoto">Foto Nuno Botelho</span>

Os apelos resultaram: desde meados de março que o movimento de regresso de emigrantes não parou de diminuir FOTO NUNO BOTELHO

Emigrantes estavam a regressar em massa a Portugal, mas a forte e inusitada campanha de dissuasão desencadeada pelas autoridades portuguesas demoveu-os de viajar nesta Páscoa

Alfa/Expresso. Por DANIEL RIBEIRO

Desde que, em meados de março, surgiram as primeiras notícias sobre o regresso em massa de emigrantes e lusodescendentes — de avião, carro, carrinha ou autocarro — às suas terras de origem, onde muitos não respeitavam a quarentena, passeavam como se estivessem em descontraídas férias, visitavam familiares e amigos e organizavam convívios e jantares para “matar saudades”, a campanha das autoridades portuguesas não mais parou.

Estas notícias surpreenderam as autoridades e criaram atritos em algumas aldeias e vilas natais dos emigrantes, entre autarcas, residentes habituais e este novo género de “retornados” que, ainda para mais, eram suscetíveis de transportarem o vírus consigo, sem o saberem.

Só através da Rádio Alfa, o principal meio de comunicação português em França, exprimiram-se diversos presidentes de câmaras do interior de Portugal, bem como governantes, embaixador e cônsul-geral em Paris, padres, deputados, dirigentes associativos. Todos — incluindo o primeiro-ministro, o chefe da diplomacia portuguesa e o Presidente da República —transmitiam a mesma mensagem, repetida vezes sem conta: “Por favor não venham, adiem as viagens!.”

ALARMADOS COM A COVID-19, DECIDIRAM “REFUGIAR-SE” EM PORTUGAL

Os emigrantes, bem como franco-portugueses (com dupla nacionalidade) e seus descendentes, ficaram alarmados com a dimensão da crise sanitária em França, que na altura já era muito mais forte e dramática do que em Portugal.

E, como grande parte deles tem melhores condições de habitação em Portugal, muitas vezes moradias ou casas com quintal nas suas terras de origem, decidiram antecipar o regresso, para passarem este período em melhores condições. Aconteceu sobretudo com os mais velhos, que têm ao longo dos anos adiado o seu regresso definitivo ao país para estarem em França mais perto dos seus filhos e netos, a maioria deles já nascidos em França.

O movimento em direção a Portugal (de portugueses residentes em França e também na Suíça) foi importante até 18 de março, segundo dados fornecidos pelas autoridades portuguesas em Paris.

Mas os apelos em sentido contrário, o fecho dos aeroportos e das fronteiras terrestres, bem como as notícias de que os que tinham regressado não estavam a comportar-se devidamente e não eram desejados, convenceram muitos a não se lançarem à estrada.

“Eu sei que vos custa muito, mas por favor não vão a Portugal na Páscoa, adiem a viagem” ,disse-lhes também, numa crónica na Alfa, na semana passada, Carlos Pereira, diretor do “Lusojornal” e antigo presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas.

“Os portugueses de França têm estado a anular e a adiar praticamente todas as suas viagens”, confirmou esta semana o português Rui Lafayette, gerente de uma conhecida agência de viagens em Paris.

“FIQUEM EM CASA. MAS EM FRANÇA”

No entanto, alguns não receberam bem o que consideraram ser “uma discriminação” e a comunidade residente em França dividiu-se em debates sem fim, por exemplo na página facebook da Rádio Alfa e outras. Uns exclamavam: “Continuamos a ser tratados como portugueses de segunda!”. Outros respondiam: “Estúpidos, respeitem a quarentena!” ou alinhavam com os apelos das autoridades dizendo-lhes: “fiquem em casa, mas em França!”.

Com as férias da Páscoa adiadas para os que as tinham planeado, o que se sente na comunidade é sobretudo apreensão com o futuro, seja ele imediato ou a prazo.

Maria Costa, porteira no bairro número 11 de Paris, chegou, com o marido, à idade da reforma. Apesar de terem dois filhos e dois netos em França, estavam a pensar regressar definitivamente ao país (ao distrito de Bragança, onde possuem casa com horta e jardim) no próximo verão. Madame Costa, como é conhecida na sua rua, está apreensiva por causa do vírus, que não distingue nacionalidades, nem raças, nem ricos, nem pobres. Mas também se interroga sobre como vai ser a circulação de pessoas nos próximos meses: “Espero que no verão já possamos viajar e regressar!”.

Muitos emigrantes, sobretudo os antigos da primeira geração e os de meia idade, encaram as atuais dificuldades para o seu regresso, que se podem prolongar depois do período da Páscoa, como se tivessem sido condenados a uma “dupla pena”: quando foram para França e, agora, quando querem regressar à terra natal.

Vendo-se obrigados a sair jovens de Portugal, para fugir à miséria nos anos 1960/70, viveram em França os primeiros anos com grandes dificuldades. Depois construíram casas nas suas terras, investiram e enviaram elevadas remessas para o país. O objetivo — muitas vezes adiado, porque, entretanto, nasceram descendentes na terra de acolhimento — foi sempre o de regressar, para viverem calmamente os últimos anos de vida na terra natal. Até agora, podiam fazê-lo quando quisessem. Mas a crise do novo coronavírus veio complicar-lhes a vida.

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