FMI prevê maior abrandamento económico desde a crise de 2012

Publié le 9 octobre 2018

Fundo confirma que Portugal deve abrandar para 1,8% em 2019, o que é compatível com o défice de 0,3% estimado pela missão em setembro. Economia volta a divergir na zona euro.

Christine Lagarde chefia o FMI.

A economia portuguesa deverá registar, em 2019, o maior abrandamento desde a crise de 2012 e, neste cenário, tornará a divergir face à média da zona euro, projeta o Fundo Monetário Internacional (FMI) no novo panorama sobre o crescimento mundial (World Economic Outlook), apresentado nesta terça-feira de manhã em Bali, Indonésia.

Tal como avançou a missão que veio a Portugal para fazer avaliar o pós-programa de ajustamento, o produto interno bruto (PIB) de Portugal deve crescer, neste ano, 2,3% em termos reais, mas no ano que vem perde força e só cresce 1,8%, valor que também fica abaixo dos 1,9% estimados para o conjunto da zona euro.

Na previsão, o FMI ainda não avança com os valores atualizados para o défice público e a dívida, mas o novo cenário de crescimento de 2019 é totalmente consistente com o défice de 0,3% do PIB anunciado pela missão do fundo em meados de setembro (abaixo do prognóstico de 0,7% para 2018, marca que coincide com a do governo). Nessa altura, o valor avançado para o rácio da dívida apontava para uma descida de 120,8% em 2018 para 117,2% do PIB no ano que vem.

Os valores relativos às finanças públicas serão alvo de análise e comentário na quarta-feira, quando for apresentado o estudo do Monitor Orçamental (Fiscal Monitor), que é coordenado por Vítor Gaspar, antigo ministro das Finanças de Portugal, hoje chefe do departamento de assuntos orçamentais do FMI.

O ambiente externo que se perfila para 2019 voltou a ser menos favorável e é o fator impeditivo mais citado pelo FMI no novo outlook. Complica mais o ajustamento orçamental em muitas economias, Portugal incluído. E exige mais vigor nas chamadas reformas estruturais.

Este abrandamento económico de Portugal, oficializado agora ao mais alto nível pela instituição chefiada por Christine Lagarde, é de meio ponto percentual em 2019 e o maior desde 2012, altura em que a recessão se agravou 2,2 pontos percentuais.

A receita de impostos, que tem sido crucial e até dominante a fazer descer o défice português, tenderá a perder gás. A execução orçamental fica mais apertada e haverá mais pressões para poupar em rubricas da despesa.

“Demasiado otimistas em abril”

Portugal e outros países crescem menos porque, essencialmente, o ambiente envolvente se tornou mais obscuro e incerto. Essa ideia já pairava há uns meses, desde que os EUA começaram a ameaçar dificultar as relações comerciais com outros países (como a China), mas agora os efeitos negativos já são reais.

Só para se ter uma ideia, 13 dos 19 países que compõem a zona euro vão crescer menos em 2019 do que no corrente ano. O maior parceiro económico de Portugal, Espanha, deve desacelerar 0,5 pontos percentuais, crescendo apenas 2,2% no ano que vem. Alemanha e França mantêm os ritmos respetivos de 2018 (1,9% e 1,6%) pelo que a zona euro trava apenas uma décima (2% em 2018 e 1,9% no próximo ano).

Maurice Obstfeld, o economista-chefe que no final deste ano será substituído no cargo por Gita Gopinath, recordou que “em abril, a recuperação ampla da economia mundial levou-nos a projetar um crescimento de 3,9% para este ano e o próximo”, no entanto, tendo em conta o que aconteceu desde essa altura, “esses números parecem ser demasiado otimistas”. A economia vai evoluir a um ritmo de 3,7% neste dois anos em análise.

A revisão em baixa é explicada pelas muitas incertezas que pairam no comércio mundial e na confiança dos investidores e empresários, mas também por algumas políticas domésticas “que parecem ser insustentáveis” no longo prazo, observou o diretor do departamento de estudos económicos.

13 dos 19 países que compõem a zona euro vão crescer menos em 2019 do que no corrente ano

Um dos casos mais flagrantes será o dos Estados Unidos, que estão a crescer com a ajuda de “políticas orçamentais pró-cíclicas” que terão o seu fim. “Os EUA irão entrar em declínio quando partes desse estímulo orçamental começarem a ser revertidas”, alerta Obstfeld. A economia norte-americana, a maior do mundo, deve arrefecer de 2,9% este ano para 2,5% no próximo.

A China também deve perder gás (de 6,6% para 6,2%) e só não será pior porque o governo vai tentar segurar a situação, “prolongando os desequilíbrios financeiros internos” do gigante asiático, observa o perito.

No meio de tudo isto, além do problema da possível rutura no comércio mundial, a zona euro tem ainda o brexit pela frente, numa altura em que há “menos munições monetárias” do que havia quando rebentou a crise de há dez anos, observa o economista-chefe do FMI, numa referência aos bancos centrais cujos juros estão em zero ou próximos disso.

artigo de Luís Reis Ribeiro / Diário de Notícias


Opinions des lecteurs

Laisser un commentaire


Rádio Alfa FM 98.6 Paris (On Air)

La radio de la lusophonie et des échanges interculturels de toute l'île de France

Piste actuelle
TITRE
ARTISTE

Background