Imperador Naruhito toma posse. A relação muito especial entre o Japão e Portugal

Imperador japonês é historiador e conhece bem o que é Portugal

Naruhito visitou Lisboa, Coimbra e Porto em 2004, como príncipe herdeiro. E fotografou esse Tejo de onde partiram as caravelas que um dia chegaram ao Japão. O pai, Akihito, imperador emérito desde 30 de abril, escreveu um dia sobre o contributo da chegada dos portugueses para que a ciência ocidental fosse conhecida. São quase cinco séculos de relação especial, que vale a pena recordar quando o Japão entra numa nova era, a Reiwa, ou « Bela Harmonia ». Um texto muito pessoal de um jornalista de que escreve num diário onde Venceslau de Moraes publicou, faz mais de cem anos, muitas das suas reportagens sobre o Japão. (Texto originalmente publicado a 1 de maio de 2019, quando Naruhito assumiu o trono, na sequência da abdicação paterna da véspera)

            Foto da Posse no Palácio Imperial de Tóquio (Lusa)

Obairro de Hiroxima onde comi okonomiyaki não fica muito longe do memorial que recorda a bomba atómica. Tem fama a cidade pela forma como faz este tipo de panqueca com tudo. A minha foi, por sugestão do dono, que também era o cozinheiro, recheada com pedaços de peixe e marisco, um luxo por uma quantia justa de ienes. Mas tinha lido que nos tempos a seguir à Segunda Guerra Mundial, depois da rendição do imperador Hirohito aos americanos, a miséria era tanta em Hiroxima que tudo servia para dar substância ao okonomiyaki, que se tornou ali um alimento de sobrevivência um pouco como o currywurst, salsicha com caril e ketchup, inventado em Berlim na mesma altura.

Falei de Hirohito, cuja voz na rádio anunciou aos japoneses que o país tinha perdido a guerra. Era 15 de agosto de 1945 e depois de Hiroxima também Nagasáqui sofrera já o horror atómico. Falo agora de Akihito, o imperador que abdicou esre ano, criança quando a Segunda Guerra Mundial decorria e que, creio que pelo que viu, fez sua a era Heisei, « Culminação da Paz ». Depois dele começou a era Reiwa, ou « Bela Harmonia », com um imperador Naruhito que nasceu em 1960, quando na Europa e na América já se publicavam livros com os apelativos títulos de O Desafio Japonês ou Japão, a Próxima Superpotência, sem esquecer O Milagre Japonês. Tenho o primeiro, comprado num alfarrabista quando em 1992 comecei a ser jornalista no Diário de Notícias, e o autor é Håkan Hedberg, correspondente em Tóquio do Dagens Nyheter, o DN sueco, fundado também em dezembro de 1864.

Milagre não, génio e muito esforço

Na realidade não houve milagre nenhum. O sucesso do Japão, que fez que em Hiroxima os okonomiyaki voltassem a ter peixe ou carne como recheio e não apenas couves, deveu-se ao esforço e ao génio do povo japonês, esforço e génio que se tinham já notado noutras ocasiões, como aquando da Revolução Meiji, na segunda metade do século XIX, que transformou em poucas décadas um país antes fechado ao mundo numa nação rica e poderosa.

O imperador Meiji, Mutsuhito de seu nome, era avô de Hirohito, logo bisavô de Akihito e trisavô de Naruhito. Foi um grande governante, político e militar, capaz de criar uma monarquia constitucional, promover a industrialização do país e também de derrotar o Império Russo, uma vitória sobre uma potência europeia em 1905 que assombrou um mundo então regido por uma lógica colonial em que asiáticos e africanos não eram tidos em grande conta. O imperialismo japonês que se seguiu, com colonização da Coreia e depois tentativa de conquista da China, imitou o modelo europeu e acabaria de forma dramática no verão de 1945.

O papel do imperador japonês já não é o mesmo hoje do que na era Meiji. « Pela Constituição do Japão, o imperador é definido como símbolo da nação e da unidade do povo japonês. Para além de estar baseado no consenso do povo soberano, o seu estatuto não é dotado de nenhuma função do poder do Estado e é regulamentado para exercer atos nacionais de acordo com as decisões do governo e da Dieta, o parlamento », explica Jun Niimi, embaixador em Portugal. O que não significa que a sua personalidade não conte muito para o povo do arquipélago, afinal estamos perante uma dinastia que vem de tempos míticos e que mesmo pelos padrões históricos se confunde com a nação há uns 1500 anos. « O imperador Akihito visitou as áreas afetadas pelo desastre do Grande Terramoto do Leste do Japão e encorajou as vítimas. Também consolou as almas das vítimas da Segunda Guerra Mundial tanto japonesas como estrangeiras e tem demonstrado solidariedade e coragem para o povo », acrescenta o embaixador japonês em Lisboa, salientando que « muitas pessoas têm profunda reverência por tal atitude de sua majestade ».

Natural seguidor do pai na recusa de um estatuto divino e de procura de mais proximidade com o povo, Naruhito viverá tal como Akihito no palácio imperial em Tóquio que, e temos de remontar de novo à era Meiji, só se tornou capital do Japão há século e meio, já o DN existia. A magnífica construção em pedra no coração da cidade foi o castelo dos Tokugawa, última dinastia de xóguns, chefes militares em teoria obedientes ao imperador residente em Quioto, mas na realidade verdadeiros senhores do país durante um longo período da história japonesa. Que nunca nenhuma destas dinastias tenha procurado substituir-se à família imperial é impressionante e explica porque o imperador que hoje assume o trono é o 126.º da mesma linhagem a reinar no arquipélago.

Uma história de assombro

Já mandava o clã Tokugawa no Japão quando no século XVII os últimos portugueses, missionários e comerciantes, foram expulsos por receio da influência do catolicismo na unidade nacional (Martin Scorsese realizou Silêncio a partir do romance homónimo de Shusaku Endo que conta a perseguição). E mandavam ainda os Tokugawa quando por pressão de um almirante americano com os canhões apontados o país se reabriu ao mundo. Foi ocasião para Portugal restabelecer relações logo em 1860, como bem o mostrou há meses a exposição Uma História de Assombro, em Lisboa, no Palácio da Ajuda.

Akihito e a mulher Michiko visitaram Portugal em 1998, para a Expo dedicada a esses oceanos que levaram os portugueses até ao Japão em 1543, os primeiros europeus a lá chegar. E ainda antes de subir ao trono, já tinha também cá estado em 1985. O imperador Naruhito, então príncipe, também nos visitou em 2004, indo a Lisboa, Sintra, Coimbra e Porto. No arquivo do DN estão as fotografias de uma ida ao Castelo de São Jorge em que o japonês sorridente se entretém com as vistas de Lisboa. A dado momento até segura numa pequenaFuji Klasse (alta tecnologia japonesa, claro) para levar para casa uma foto do Tejo. Talvez a tenha nalgum álbum, talvez a tenha mostrado à agora imperatriz Masako e a Aiko, a filha que não pode herdar o trono (na linha de sucessão estão o irmão de Naruhito e o filho deste). Porque foi àquele Tejo que chegaram os jovens da primeira embaixada japonesa à Europa, seguindo depois para Madrid, onde estava Filipe II, I de Portugal, e de seguida para Roma, ver o Papa. E foi daquele Tejo que reembarcaram rumo ao seu Japão distante. Sabe-se que essa embaixada Tensho visitou os Jerónimos, como se sabe que Naruhito também andou por Belém e ainda teve tempo de ir ver os biombos Namban ao Museu Nacional de Arte Antiga, testemunhos únicos de um dos grandes encontros de civilizações da história mundial.

O imperador emérito que percebe de peixes

Naruhito estudou na Grã-Bretanha e até publicou umas memórias dos tempos em Oxford. Não sei se alguma vez escreveu sobre Portugal e sobre as relações únicas entre os dois países, mas o pai sim, contou-me um dia o historiador João Paulo Oliveira e Costa, cujo saber sobre o Japão é enorme, desde a sua tese de doutoramento dedicada ao cristianismo japonês até ao romance O Samurai Negro. Procure-se no Google Akihito+Science+Portugal e surgirá um artigo do agora imperador emérito sobre a chegada da ciência ao Japão. E lá está na revista americana, com a assinatura de Akihito, a referência aos chineses, evidentemente, mas também aos portugueses, e com toda a justiça. Saliento a nota de rodapé da Science a dizer que « sua majestade é ictiologista e autor de dezenas de artigos científicos ». Já agora, por se falar de monarcas letrados, se o pai é biólogo especializado em peixes, Naruhito é um historiador.

Chegaram os portugueses ao Japão num tempo de guerra civil. A introdução da espingarda ajudou a desequilibrar a guerra e a que houvesse um vencedor, reunificando em nome do imperador. São Francisco Xavier, navarro formado em Coimbra e ao serviço da Coroa portuguesa, tentou em 1551 ser recebido pelo imperador, mas os 11 dias passados em Quioto de nada lhe valeram. Foi Luís de Fróis quem conseguiu pouco depois autorização para os jesuítas se instalarem na capital imperial, chegando a ser recebido não pelo imperador mas pelo xógum. Foi, porém, em Nagasáqui que o catolicismo mais se desenvolveu no Japão, fazendo dela uma das cinco grandes cidades – e volto a citar uma conversa com João Paulo Oliveira e Costa publicada no DN – criadas pelos portugueses mundo fora no século XVI: Rio de Janeiro, São Paulo, Luanda e Macau são as outras.

E dois mundos se encontraram

Na visita que fiz ao Japão, já lá vão dois anos, também incluí Nagasáqui. Impressionou-me uma vez mais, como em Hiroxima, o sofrimento causado pela bomba atómica e também a tragédia extra de a explosão ter sido quase na catedral, destruindo uma comunidade cristã que recuperava finalmente dos tempos da clandestinidade, quando os cristãos se escondiam, os chamados kakurekirishitan.

Hiroxima e Nagasáqui, Portugal também e Japão, realidades unidas na figura de um bispo que conheci e entrevistei em Fátima. Nascido nas ilhas de Goto, refúgio dos tais kakure kirishitan ao largo de Nagasáqui, D. Alexis Mitsuru Shirahama, bispo de Hiroxima, não hesita em dizer que « como japonês e católico estou muito grato pela cultura portuguesa ».

Também o embaixador Niimi destaca a força da relação histórica: « Portugal foi o primeiro país europeu com que o Japão se encontrou em 1543. A cultura da Europa Ocidental foi introduzida pela primeira vez no Japão através de Portugal, e muitas palavras oriundas do português, como pão, copo e botão, ainda são utilizadas. Também a introdução do arcabuz influenciou de uma maneira extraordinária a história do Japão mais tarde. Todos nós japoneses aprendemos estes factos na escola. Sendo assim, os japoneses estão familiarizados com Portugal. »

O contrário também é verdade. Se Brasil, Índia e China fazem parte da nossa mitologia nacional, o Japão, é preciso não esquecer, foi o ponto mais longínquo da aventura das Descobertas. O italiano Marco Polo pode ter ido à China e ouvido falar de Cipango, mas não foi lá nunca. E se o embaixador relembra as palavras portuguesas que há no japonês, digamos que também importámos algumas dessa língua, embora, culpa dos marinheiros, deturpando o sentido original, seja sacana (peixe) seja chunga (desenhos eróticos).

Houve muitos portugueses apaixonados pelo Japão ao longo dos séculos. Armando Martins Janeira, que foi embaixador em Tóquio já depois da Segunda Guerra Mundial, deixou-nos o livro Japão – Construção de Um País Moderno. E Venceslau de Moraes, que foi cônsul em Kobe e viveu 30 anos no Japão, deixando-se japonizar na mesma medida em que se perdia de amores por duas japonesas, escreveu tanto, tanto sobre o país, que algumas reportagens publicadas no início do século XX no DN fazem parte dos tesouros do arquivo do jornal. Hoje, o Japão continua a chegar a Portugal. Gostamos dos automóveis (vou no terceiro Mazda, da fábrica do Sr. Matsuda, em Hiroxima), das máquinas fotográficas, mas também do manga e do anime (e como gostei de visitar os estúdios do Doraemon!) ou dos bonsais e do sushi (já o tempura é um delicioso produto do contacto cultural luso-nipónico). E seguimos com muita atenção esta passagem de testemunho de um pai a um filho, de um imperador a outro, numa terra longínqua mas bem perto.

« Mais tarde, em meados do século XVII, o governo japonês aplicou a política de isolamento e houve uma longa interrupção do intercâmbio entre os dois países. Porém foi retomada a relação bilateral em meados do século XIX, e celebraremos o 160.º aniversário do Tratado de Paz, Amizade e Comércio em 2020 », recorda ainda o embaixador Jun Niimi, que acrescenta, olhando para o presente: « É da minha alegria observar a relação entre os dois países mais ativa nos últimos anos, graças à expansão das relações económicas e ao rápido aumento do número de turistas em ambos os países. Com a entrada do vigor do Acordo de Parceria Económica UE-Japão deste fevereiro e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio 2020, espera-se que os laços entre os dois países fiquem ainda mais estreitos daqui para frente. » Só teremos a ganhar. E que Naruhito volte como imperador a Portugal.

Japão, país do futuro

O Japão é hoje uma democracia respeitada (e para isso contribuem os dois maiores jornais do mundo, o Yiomiuri e o Asahi) e um parceiro essencial do chamado Bloco Ocidental desde o tempo da Guerra Fria. Ambiciona um assento permanente no Conselho de Segurança de umas Nações Unidas para as quais é o terceiro maior contribuinte. Foi complicado e até humilhante para muitos o fim da Segunda Guerra Mundial, com a ocupação americana, mas, como escreveu o diplomata e historiador Edwin O. Reischauer, esta foi benigna ao ponto de « nunca um ocupante e um ocupado terem alguma vez tirado tanto proveito de uma tal situação ». O resultado é ainda hoje o Japão com 127 milhões de habitantes ser a terceira maior economia mundial, sem perseguidor sequer perto.

Naruhito, o imperador Reiwa, herda pois um país admirável, o país democrático construído das cinzas da derrota que entusiasma até um cético como Kenzaburo Oe, Nobel da Literatura. Um país que, sem milagre, fez uma recuperação notável depois de 1945, mas hoje, apesar de tanta prosperidade, tem poucas crianças e muito velhos. « Ficámos sem nada, tínhamos fome e tivemos de procurar a comida e tudo o resto, mas trabalhámos muito », disse-me numa entrevista o japonês Sukehiro Hasegawa, que foi chefe da Missão das Nações Unidas em Timor. Ainda bem que, nos tempos de Naruhito, okonomiyaki é de novo uma panqueca que se pode encher de delícias.

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