Isabel dos Santos: a submissão portuguesa. Opinião

Publié le 22 janvier 2020

Alfa/Expresso. Por Henrique Monteiro

É inútil gastar muita tinta com esta história: José Eduardo dos Santos governou com mão de ferro 40 anos de história angolana. Quem lhe era próximo enriqueceu, quem lhe era muito próximo enriqueceu muito, quem denunciava o sistema foi preso, caso vivesse em Angola, ou enxovalhado e impedido de entrar, caso vivesse fora de Angola. O regime era uma cleptocracia e todos o sabiam. Eu escrevi-o e citei esta palavra várias vezes.

Há pessoas que têm a consciência tranquila neste assunto. Nomeio duas de que não sou politicamente próximo: Ana Gomes e Francisco Louçã. Há outras que não a podem ter. E não refiro apenas aqueles que podem ser cúmplices de ilegalidades, mas também os que sabiam e calaram. E nesses, salvo raras e honrosas exceções, estão quase toda a classe política, grande parte da classe empresarial e boa parte da classe jornalística.

No meu julgamento, que pode ser excessivamente implacável, poucos escapam. Em termos de direções partidárias, só o Bloco de Esquerda foi consistente na Oposição à vergonha de Angola. Inúmeros jornalistas, dos mais antigos, que vêm comentar a excelente investigação levada a cabo pelo Expresso (Micael Pereira) e a SIC (Luís Garriapa) em conjunto com o Consórcio Internacional, falaram sempre de Angola como se de um país normal se tratasse. Aplaudiram os investimentos dos seus cleptocratas como se não conhecessem os vários desmandos e tráficos, como, por exemplo, o do francês Pierre Falcone, condenado pela justiça do seu país, perante os protestos do Governo de Luanda; ou a proibição de circulação de dinheiro angolano em bancos e mesmo em países mais decentes do que o nosso. Pelo contrário, faziam rapapés.

Era uma espécie de provérbio alterado: em vez de fazer o bem se olhar a quem era lucra bem sem olhar com quem

Mas isto não surpreende. Passaram-se coisas semelhantes em relação à Venezuela. Os nossos representantes políticos (aqui nem o BE se salva) andaram por lá, porque os negócios é que contavam. Era uma espécie de provérbio alterado: em vez de fazer o bem se olhar a quem era lucra bem sem olhar com quem.

De Angola tratarão os angolanos. Claro que as dúvidas sobre as intenções e processos do novo Presidente, João Lourenço, não estão absolutamente clarificados. Pode ser apenas uma limpeza dos apparatchiks anteriores ou mais do que isso, um efetivo combate à corrupção. Veremos.

Mas por cá a vergonha cola-se àqueles que faziam os rapapés. Uma vergonha que, em certos casos, vem de longe. Desde 1992, quando o PS teve dirigentes a apoiar a campanha eleitoral do MPLA e permitiu a sua entrada na Internacional Socialista e Durão Barroso, como MNE, tomava partido por eles. Já eram os mesmos, já eram José Eduardo dos Santos e os generais de nomes de guerra estranhos. Já os jornalistas portugueses comprometidos com o regime de Luanda ficavam num hotel diferente do que a Imprensa internacional e a portuguesa que não desistia de denunciar. Quase há 30 anos, alguns podiam ter a ilusão de estar a apoiar uma causa. Mas é curioso como quase toda essa gente continuou a apoiar a causa quando se tornou claro que o bando pró-soviético, até à implosão da URSS e que tinha respaldo no exército cubano, revelou que apenas queria ‘capitalisticamente’ enriquecer o mais depressa possível. Ficaram multimilionários num instante.

Por cá, foram tratados não como ladrões do pior, colonialistas do seu próprio povo, extratores de inúmeras riquezas que deixavam o seu próprio povo entregues à fome, à doença, à extrema miséria, mas como empresários de sucesso. Sim, haverá alguns que fizeram o caminho sem pisar ninguém. Mas serão mais escassos do que água no deserto.

Por cá, o ‘Luanda Leaks’ devia encher de vergonha muita gente. Aquela mesma que nunca se incomodou com os ataques do jornal oficial de Angola a cidadãos seus. Desde as mais altas figuras do Estado (Mário Soares) aos jornalistas e repórteres que não lhes agradavam. Um Estado que nunca se preocupou com o facto de Órgãos de Comunicação Social (Expresso e SIC, pelo menos) estarem anos e anos proibidos de entrar em Angola, nem com a censura que esses órgãos (nomeadamente a SIC) sofria em Luanda.

Deviam estar cheios de vergonha, os que em 2008 criticaram o “exagero” de Bob Geldof quando se referiu a Angola como uma cleptocracia; palavra que já tinha sido utilizada por Mário Soares para descrever aquele regime.

Agora não vale a pena demarcarem-se, jurarem pelos santinhos e pelos Dos Santos, que não sabiam de nada. Como um dia disse Maria José Nogueira Pinto (que Deus tenha e guarde) vocês sabem que nós sabemos que vocês sabem que nós sabemos.

Alguns terão remorsos, outros nem isso.

Leia a versão original deste artigo em expresso.pt


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