Jiadista portuguesa: “Se me aceitarem, estou disposta a ir para Portugal”

Publié le 11 avril 2019

Jiadista portuguesa: “Se me aceitarem, estou disposta a ir para Portugal”. Ângela Barreto foi para a Síria em 2014 para se juntar ao Daesh. Casou com um soldado português, teve dois filhos – a mais velha morreu há menos de uma semana

 

1

A portuguesa Ângela Barreto está no califado desde agosto de 2014

D.R.

Alfa/Expresso/RTP

O português de Ângela Barreto tornou-se mau, há muito que o deixou de usar. A jovem que em agosto de 2014 fugiu para a Síria para se juntar ao Daesh está agora num dos campos no nordeste do país, tal como milhares de outras mulheres e filhos de soldados do grupo radical islâmico. Se a aceitarem, Ângela quer voltar a Portugal. Continua a acreditar “num estado que siga as regras do Islão”.

“O Estado Islâmico foi noutra direção. Eu apoio as regras do islão: usar o hijab, não fumar… Esse é o Estado que defendo. Por vezes, o Estado Islâmico foi noutras direções”, disse Ângela Barreto numa entrevista à RTP, emitida esta quarta-feira.

Ângela Barreto chegou àquele campo depois de ter deixado o último bastião do Daesh na Síria, Baghouz. Estava com os dois filhos: um menino de dois anos, uma menina de três. O pai das crianças, Fábio Poças, fazia parte do grupo de portugueses que também se juntou ao Daesh. O que lhe aconteceu? “Foi martirizado”, respondeu apenas.

– E o que é feito deles [dos filhos]?
– A minha filha morreu ontem.

A entrevista foi gravada na última sexta-feira, um dia após a morte da filha de Ângela – tal como o Expresso avançou. A menina foi atingida por estilhaços durante o cerco a Baghouz, no final de março. Era uma das 20 crianças de ascendência portuguesa que se encontram retidas em campos destinados a famílias de jiadistas e controlados por forças curdas.

“Um estilhaço da bomba ficou-lhe na cabeça. Esteve dez dias no hospital e nos primeiros cinco dias não me permitiram estar com ela. Ia todos os dias à direção do campo dizer que queria ir ter com a minha filha, mas diziam-me que não podia”, contou. Inicialmente disseram-lhe que o corpo da filha acabaria por expulsar sozinho o fragmento. Isso não aconteceu. “Não falava, não andava, os olhos andavam à volta. Só então me disseram que tinha mesmo de ir ao hospital ou ela podia morrer. E quando a levei ao hospital disseram que não a podiam operar porque já deveria ter ido antes.” O estilhaço tinha penetrado profundamente no cérebro da menina.

Fábio Poças, rapaz propaganda e aliciador de futuros jiadistas, e a mulher Angela Barreto, a única mulher portuguesa

Fábio Poças, rapaz propaganda e aliciador de futuros jiadistas, e a mulher Angela Barreto, a única mulher portuguesa

Sobre a vida em Baghouz, Ângela pouco fala. Recorda apenas os bombardeamentos a toda a hora e os atiradores furtivos. Agora, no campo de deslocados, não sabe o que lhe vai acontecer. “Ainda bem que a minha filha partiu porque isto aqui não é fácil”, lamentou.

Questionada sobre se quer voltar a Portugal, a jovem de 24 anos respondeu: “Se me aceitarem… Mas ouvi dizer que não têm levado as pessoas de volta. Se me aceitarem, estou disposta a ir. Caso não me aceitem tenho de ver como viver nesta situação”.

Ângela garante que pediu ajuda ao Governo por causa da filha e que tem mantido o contacto com a família em Portugal. Tal como o Expresso noticiou há duas semanas, o Executivo está a preparar o repatriamento para Portugal de crianças e mulheres portuguesas que se encontram nos campos de detenção para jiadistas na Síria. A organização está a ser feita sob grande secretismo, tanto do lado do Governo como das famílias dos ex-combatentes do Daesh.

“Publicaram uma coisa online a dizer que querem levar-nos de volta. Mas que precisam de uma rota segura para Erbil, no Iraque, para nos levarem. A Cruz Vermelha também quer ajudar, mas primeiro o Governo tem de confirmar que nos quer mesmo levar. Vamos ver”, disse. “Mas isto não era para mim, era para a minha filha. Queria que tivesse assistência médica. Mas não fizeram nada. E ela morreu com três anos”, lamentou.

A fuga de Ângela Barreto, luso-holandesa, foi noticiada em 2014 pelo Expresso. A jovem fugiu para o ‘califado’ para casar com o português Fábio Poças, no verão de 2014. Em 2015 terá convencido através da internet três menores holandesas a rumar à Síria – e por isso também tem um mandado de captura emitido pelas autoridades na Holanda desde dezembro de 2016.


Rádio Alfa FM 98.6 Paris (On Air)

La radio de la lusophonie et des échanges interculturels de toute l'île de France

Piste actuelle
TITRE
ARTISTE

Background