
O treinador Jorge Jesus é o novo selecionador de Portugal, tendo assinado um contrato válido por quatro anos, até 2030, com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), disse hoje à Lusa fonte ligada ao processo.
De acordo com a mesma fonte, Jesus, de 71 anos, deverá ser apresentado na sexta-feira à tarde, sucedendo ao espanhol Roberto Martínez, que deixou o cargo imediatamente após a derrota com Espanha (1-0), que ditou a eliminação da equipa das ‘quinas’ do Campeonato do Mundo, nos oitavos de final.
O técnico português estava livre desde que deixou o Al Nassr em maio, após conquistar o título de campeão saudita com um plantel no qual pontificavam os internacionais lusos Cristiano Ronaldo e João Félix.
Antes, tinha passado duas épocas nos também sauditas do Al Hilal – num regresso ao clube que tinha comandado em 2018/19 -, sendo que, na primeira época, venceu a Liga saudita, a Taça da Arábia Saudita e a Supertaça saudita, mas caiu nas meias-finais da Liga dos Campeões asiáticos, tal como sucedeu no ano seguinte.
Na segunda temporada seguida no Al Hilal, em que se cruzou igualmente com outros internacionais portugueses, no caso João Cancelo e Rúben Neves, o técnico venceu a Supertaça local, mas foi eliminado nos quartos de final da Taça da Arábia Saudita, acabando por sair ainda antes do final da temporada, quando a equipa estava na segunda posição.
Em quase 40 anos de carreira como treinador, que se iniciou em 1989/90, no Amora, na III Divisão, esta será a primeira vez que Jorge Jesus irá assumir a liderança de uma seleção, depois de ter orientado 16 clubes, entre os quais os ‘grandes’ lisboetas Benfica, em duas passagens (2009 a 2015 e entre 2020 e 2021), e Sporting.
De resto, em nove épocas e meia nos ‘encarnados’ conquistou 10 troféus, todos na primeira passagem, entre 2009/10 e 2014/15, com três títulos de campeão, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e cinco taças da Liga, enquanto, pelos ‘leões’, venceu uma Supertaça e uma Taça da Liga, entre 2015/16 e 2017/18.
O currículo do técnico inclui ainda Felgueiras, União da Madeira, Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Moreirense, União de Leiria, Belenenses, Sporting de Braga, Flamengo e Fenerbahçe.
Se no emblema de Istambul, em 2022/23, venceu somente a Taça da Turquia, no clube brasileiro deixou ‘marca’, não só nos adeptos ‘rubro-negros’, como em todo o futebol do país, entre 2019 e 2020.
Em cerca de ano e meio ao comando do Flamengo, conquistou um campeonato brasileiro, uma Supertaça do Brasil, uma Taça Libertadores e uma Supertaça sul-americana, além de ter atingido a final do Mundial de clubes de 2019, que o ‘mengão’ perdeu diante do Liverpool, no prolongamento (1-0).
O novo selecionador de Portugal terá agora pela frente a missão de conduzir o conjunto luso ao Campeonato da Europa de 2028, que terá lugar no Reino Unido e na Irlanda e cuja fase de qualificação se disputará entre março e novembro de 2027. O sorteio dos grupos de apuramento terá lugar em 06 de dezembro deste ano.
Na mente de Jorge Jesus estará igualmente o Mundial de 2030, que será organizado por Portugal, Espanha e Marrocos.
Contudo, a estreia de Jesus à frente da seleção nacional está marcada para 24 de setembro, quando Portugal começar a defender o título da Liga Nações diante do País de Gales, na primeira jornada do Grupo A1, no Estádio José Alvalade, em Lisboa.
A equipa lusa terá ainda como adversários Dinamarca e Noruega nesse agrupamento, que será disputado até 17 de novembro, apurando-se os dois primeiros classificados para os quartos de final.
PERFIL: O pináculo da carreira de ‘JJ’ chega repleto de desafios

*** Marco Oliva, agência Lusa ***
Com quase 40 anos de carreira como treinador, Jorge Jesus atinge, aos 71 anos, o pináculo do percurso nos bancos, assumindo uma seleção portuguesa novamente a ‘carpir mágoas’ após mais um ‘banho de realidade’ numa competição de futebol.
A derrota com Espanha nos oitavos de final teve como consequência maior a eliminação do Mundial2026, mas também a saída do espanhol Roberto Martínez do cargo de selecionador, três anos e meio após ter rendido Fernando Santos na sequência de outra desilusão mundial, no Qatar – a narrativa das candidaturas lusas às grandes competições tem sido, invariavelmente, contrariada no campo.
A substituição do técnico não é propriamente uma novidade e o nome do novo responsável menos ainda, tendo em conta que Jorge Jesus era apontado há muito como o senhor que se seguiria, nomeadamente desde que José Mourinho se afastou do rol de opções da FPF com a ida para o Real Madrid.
Jorge Jesus é, assim, a primeira escolha de Pedro Proença desde que foi eleito presidente da FPF, alcançando o maior e mais prestigiante cargo em quase quatro décadas de banco, mesmo que tenha no currículo passagens por clubes com a grandeza de Benfica, Sporting ou Flamengo.
« Quem é que pode dizer que não à seleção? Já disse que não a uma das melhores seleções do mundo, não posso dizer a outra », confessou no final de maio.
Quando decidiu pendurar as botas e assumir-se como treinador, Jesus começou por baixo, na III Divisão, no Amora, em 1989, chegando a esta fase com um total de 16 clubes treinados, maioritariamente em Portugal, mas também na Arábia Saudita – onde se cruzou com Rúben Neves, João Cancelo, João Félix e Cristiano Ronaldo -, no Brasil e na Turquia, que lhe proporcionaram praticamente 1.500 partidas como técnico.
Estrela da Amadora e Benfica foram os únicos emblemas que comandou em duas ocasiões distintas, sendo que foi na liderança dos ‘encarnados’ que emergiu internacionalmente e começou a compor o palmarés de conquistas – à cabeça, três títulos de campeão nacional entre 2009 e 2015.
Na Luz, cruzou-se com dois internacionais argentinos insuspeitos, Pablo Aimar e Javier Saviola, que, anos mais tarde, lhe reservaram elogios pelo conhecimento do jogo e pela forma como vive o treino.
“Aprendi muito com ele, pela sua forma de ver o futebol e a paixão que transmitia. Foi um excelente técnico”, apontou o antigo avançado, cuja opinião foi reforçada por ‘el mago’, atual treinador-adjunto de Lionel Scaloni na seleção argentina: “Gostava de treinar com o Jorge no Benfica. Gostava dos exercícios e das explicações. Gostava da paixão com que ele vivia o futebol. Aprendi com ele e uso muito dele no meu papel de treinador”.
Se a presença no Euro2028 é a exigência mais próxima do novo selecionador, não se pode descurar – ainda que esteja mais distante – o Mundial2030, a segunda competição organizada por Portugal desde o Europeu de 2004, agora juntamente com Espanha e Marrocos.
Contudo, outros desafios estarão mais próximos no horizonte de ‘JJ’, desde logo se será levada a cabo alguma renovação da seleção, se é possível aumentar o nível qualitativo da equipa com jogadores que estão espalhados por vários campeonatos e equipas de caraterísticas diferentes, sem esquecer o mais premente: qual será no curto prazo o papel de Cristiano Ronaldo, com quem o técnico esteve no Al Nassr até há poucos meses.
O capitão da equipa das ‘quinas’ anunciou que não disputaria mais nenhum Mundial, mas não revelou se pretende abandonar a seleção definitivamente, isto depois de uma fase final em que foram notórias as limitações do avançado na integração de um coletivo que, também ele, nunca foi potenciado por Martínez – embora muitos queiram fazer da Liga das Nações algo que a competição não é.
Por outro lado, Jesus é, desde já, uma ‘pedrada no charco’ das escolhas da federação, tendo em conta que nunca treinou uma seleção, ao contrário dos seus antecessores mais recentes: Fernando Santos comandou a Grécia durante três anos antes de conduzir Portugal ao maior feito nacional em 2016 e Roberto Martínez esteve à frente da Bélgica, entre 2016 e 2022.
Neste particular, ergue-se uma outra curiosidade: sendo Jesus um assumido ‘obsessivo’ pelo treino de campo diário, com uma preocupação contínua com o pormenor e correção táticos, como irá adaptar-se a uma função que somente lhe permite ter jogadores de forma intermitente, na maioria das vezes durante oito a 10 dias e com dois ou três jogos pelo meio.
Com Agência Lusa.