Portugal: Em quase 80% dos concelhos não houve um único casamento em abril

Publié le 15 mai 2020

Por Catarina Silva e Delfim Machado com Sara Gerivaz para o JN

Com o confinamento, em 246 municípios não houve uniões. No país, a queda foi de 94%. Em Lisboa, só um casal deu o nó.

Com os portugueses fechados em casa e as conservatórias a funcionar por marcação, houve um travão a fundo nos casamentos: em 246 concelhos de Portugal (quase 80% do total), ninguém casou em abril. Contas feitas, as uniões caíram 94% em relação a abril do ano passado. Com a corda na garganta, a indústria do setor já fez propostas ao Governo. Se em abril de 2019 houve 1943 casamentos, no mês passado o número caiu para 112.

É certo que abril não é o mês predileto para casar: no ano passado, também havia 69 concelhos com zero uniões, mas o retrato atual é um sintoma do que o setor vive. Em Lisboa, só um casal disse o “sim” em abril, contra 217 em 2019. Em Braga não houve um único casamento e no Porto só oito casais o fizeram, segundo dados do Instituto de Registos e Notariado.

Olhando aos distritos, em abril de 2019 não houve nenhum em branco nos casórios. Mas, no mês passado, Bragança, Guarda, Vila Real e os Açores não celebraram qualquer matrimónio. Mesmo nos distritos onde mais se casa – Lisboa, Porto, Setúbal, Braga e Aveiro – foram poucos os que quiseram, sem festa, oficializar a relação. No de Braga, que teve 165 uniões em abril do ano passado, só dois casais avançaram para a conservatória durante o confinamento.

O número de casamentos já começava a dar sinais de quebra em março, quando a pandemia atingiu o país. Na altura, e comparando com o mesmo mês de 2019, a redução foi de 36,4%.

Grande impacto

O impacto no setor está patente em estudos como o da Exponoivos, que concluiu que 94% das empresas já tiveram cancelamentos ou adiamentos. Dessas empresas, 65% tiveram de adiar mais de 10 casamentos.

A Belief Wedding Creators, plataforma internacional para “wedding planners”, inquiriu mais de mil agentes em 47 países e concluiu que, em Portugal, 32,1% dos matrimónios foram adiados para o segundo semestre deste ano, 22,5% para 2021 e 6,4% foram mesmo cancelados. Só em Itália houve mais adiamentos.

A BestEvents, que organiza a BragaNoivos, ViseuNoivos e White Wedding, concluiu que 96% das cerimónias são adiadas e não canceladas. Quem cancela justifica com a incerteza sobre o futuro e o receio de não ter capacidade financeira.

A organização da Exponoivos diz que o efeito da covid-19 “pode ser devastador para as empresas, caso não sejam tomadas medidas urgentes”. Os profissionais da indústria reuniram esta semana com o Governo e apresentaram um “Manual de Boas Práticas para a Retoma de Atividade na Indústria de Eventos Sociais”.

Entre as propostas está a medição da temperatura a todos os convidados, a preferência por espaços ventilados e serviço de cocktail de pé, regras de higiene e distanciamento social. O Governo prometeu analisar as medidas com a Direção-Geral da Saúde.

Das alianças ao vestido de noiva, do bolo à decoração, dos convites às lembranças, dos músicos aos fotógrafos, há centenas de profissionais que não viviam exclusivamente dos casamentos, mas que foram fortemente afetados pelos adiamentos.

A BestEvents, responsável por feiras nacionais e internacionais, fez um estudo com 257 empresas e concluiu que o valor médio gasto na organização de um casamento é de 35 289 euros.

“É uma área onde operam mais de sete mil empresas em Portugal. Geram muito emprego e têm um grande impacto na economia portuguesa”, afirma Jorge Ferreira, da BestEvents.

O serviço mais caro é o da lua de mel. O destino de sonho e custos associados valem, em média, 3119 euros. Muito perto está o aluguer do espaço, geralmente uma quinta, que custa uma média de 3077 euros. Logo a seguir vem o vestido de noiva e acessórios, com um custo médio de 1968 euros.

O setor do vestuário é, aliás, um dos que comportam mais gastos. “Temos casamentos em que vendemos só o vestido de noiva, mas às vezes temos dez vestidos e fatos”, revela Rafael Freitas, com uma loja na Avenida da Boavista, no Porto. Tem o espaço fechado desde meados de março e preparava-se para entrar na época alta dos casamentos, mas caiu tudo por terra. “Março é o primeiro mês da época alta, tínhamos tudo preparado e estamos a zero”, lamenta, lembrando que ninguém sabe quando se vai poder fazer cerimónias com centenas de convidados. “Ninguém quer fazer um casamento com 40 ou 50 pessoas, querem ter as 200 que já convidaram”, refere Rafael Freitas.

O anúncio do estado de emergência foi no dia 12 de março e, dois dias depois, Andreia Porfírio e Luís Ramos, do Montijo, iam casar na igreja de Samouco, em Alcochete. Enquanto o primeiro-ministro António Costa falava, Andreia e uma amiga estavam na quinta a ultimar os preparativos para a cerimónia, após 17 anos de namoro.

“Começaram todos a ligar a dizer que não iam aparecer. Dá uma sensação de frustração muito grande. Eu estar a preparar tudo e as pessoas a dizer que não vinham Chorei um bocadinho, mas compreendi”, recorda Andreia. Estavam convidadas 150 pessoas, mais de metade tinha acabado de cancelar a presença.

Para além disso, a data de 14 de março não foi escolhida à toa. Era o terceiro aniversário do Rafael, o fruto recente de um amor iniciado na adolescência. Ao mesmo tempo do aniversário e do casamento, era o batizado da criança. Foi tudo adiado.

A segunda data escolhida foi junho deste ano, já com algum receio de que a pandemia pudesse novamente trocar as voltas ao casal. Assim aconteceu.

Com junho fora de hipótese, a terceira data foi anunciada. Agora vai. Andreia e Luís, ambos empresários, de 35 e 34 anos, respetivamente, vão casar a 20 de março de 2021. A alternativa a sucessivos adiamentos era casar só com os pais e avós presentes, de máscara e regras apertadas de distanciamento social. “Não faz sentido, é uma data demasiado especial para ter tanta restrição”, explica a noiva.

O dia em que António Costa anunciou o estado de emergência foi também o dia em que Andreia e Luís pagaram o casamento todo. Uma despesa que ficou parcialmente perdida, sobretudo “em coisas perecíveis que já tinham sido adquiridas, como decoração e flores”, contam.

“Calhou tudo bem”

No entanto, as grandes fatias do gasto com o casamento mantêm-se para a nova data. “Tivemos sorte e calhou tudo bem. Os fotógrafos podem, a animação do copo-d”água também, o padre já reservou dia e a quinta também estava livre no dia 20”, refere a noiva, ressalvando que a data de 14 de março de 2021, do quarto aniversário do pequeno Rafael, já estava ocupada.

Embora esteja plenamente ciente dos motivos que levaram ao adiamento, Andreia ainda pensa no 14 de março que levou sete meses a ser preparado e ficou para trás: “Estava um dia lindo de sol e deixa assim uma sensação de que já não vai ser a mesma coisa. Mas vai chegar o dia e vai ser”.

“O amor nunca falha”. Em tempo de pandemia, a frase lida durante o casamento de Ana e Rui nunca tivera tanto significado. Ao contrário de centenas de noivos, que adiaram o matrimónio devido à covid-19, o casal de 28 e 32 anos selou o amor no último sábado, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Porto.

Diante do altar, Ana e Rui tiveram a certeza de que tinham tomado a decisão certa – não adiar um sonho. “Não queríamos esperar mais pela possibilidade de dizer o “sim” que nos ligaria para sempre”, explica ao JN a jovem brasileira, a viver há dois anos e meio no Porto.

A cerimónia não contou com a habitual presença de amigos e familiares. Não houve abraços nem beijos. Os pais do noivo e as testemunhas, os únicos presentes na cerimónia, além do membros da paróquia e do fotógrafo, cumpriram as distâncias a que obriga a nova realidade e, apesar das máscaras nos rostos esconderem os sorrisos, não disfarçaram a emoção.

“A cerimónia foi muito mais do que aquilo que imaginávamos”, diz Ana.

O dia cinzento não anulou a atmosfera “alegre e serena” e a igreja vazia foi preenchida com o afeto dos familiares da noiva, que assistiram a tudo em direto do Brasil. A proximidade tornou-se possível. Não houve tristeza. “O casamento tal como foi realizado em momento algum perdeu, para nós, a sua grandiosidade, o sentimento profundo de comunhão existencial e a alegria que tínhamos sonhado”, explica a noiva.

Casar em tempo de pandemia ganhou outro significado. A angústia e a incerteza das primeiras semanas transformaram-se em resiliência. Aprenderam a “não criar muitas expectativas” sobre os planos delineados e, apesar das mudanças de última hora, “foi mesmo um sonho”.

Copo-d’água a dois

Católicos praticantes, casaram no mês “das mães e de Maria” com roupas compradas online e “alianças de última hora” obtidas após o estado de emergência.

No final do casamento, o copo-d’água foi passado em casa, a dois. Ana e Rui encomendaram sushi e brigadeiros e brindaram com champanhe, comprado para a ocasião. Após o jantar, conversaram através das redes sociais com os familiares. Uma celebração diferente adaptada aos novos tempos.

Quando for possível, o casal do Porto irá celebrar com uma festa que reúna a família e amigos. “Brincamos que não nos importamos de casar um com o outro várias vezes ao longo da vida”.


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