
O jogador do Benfica Gianluca Prestianni poderá enfrentar uma suspensão mínima de 10 jogos e até uma queixa-crime em Portugal, caso se confirmem os insultos racistas a Vinícius Júnior, defendeu um especialista em Direito do Desporto.
« Estamos a falar de sanções que, pela gravidade da situação, podem ir de uma multa de milhares de euros até uma suspensão temporária que pode ultrapassar os 10 jogos », explicou, declarações à agência Lusa, Lúcio Miguel Correia, professor de Direito do Desporto na Universidade Lusíada de Lisboa.
Na terça-feira, em partida da primeira mão do ‘play-off’ da ‘Champions’, que o Real Madrid venceu por 1-0, o avançado brasileiro Vinícius Júnior, após ter marcado o único golo do jogo, terá sido alegadamente vítima de um insulto racista por parte do argentino Gianluca Prestianni, extremo do Benfica.
O árbitro francês François Letexier interrompeu o encontro e acionou o protocolo antirracismo, retomando a ação quase 10 minutos depois.
Após o encontro, Prestianni negou qualquer insulto racista a Vinícius Júnior, enquanto o internacional brasileiro e outros jogadores do Real confirmaram a ofensa por parte do argentino.
A confirmar-se o crime de racismo ou xenofobia, o jogador argentino, aponta Lúcio Miguel Correia, arrisca, além de pesadas multas, possíveis consequências laborais e criminais.
« O comportamento é antiético e pode haver um processo disciplinar do próprio clube”, disse, acrescendo que “chamar ‘macaco’ ou usar expressões de teor racista é um crime em Portugal, podendo o Ministério Público entender avançar com o processo e o próprio Vinícius pode fazer queixa nas autoridades portuguesas ».
O especialista ressalvou, contudo, que a aplicação destas sanções exige uma « prova mais profunda, mais substancial”.
« O árbitro tem de ter uma certeza inequívoca de que as palavras foram proferidas, quem as proferiu e que foram de teor racista, coisa que, a meu ver, deixa dúvidas, porque o atleta veio desmentir”, defendeu o jurista, acrescentando que « não basta a simples denúncia » do jogador brasileiro, ainda que corroborada por colegas de equipa, como Kylian Mbappé.
O protocolo, defendeu, só deve ser aplicado se não houver dúvidas da prática daqueles atos.
Para Lúcio Miguel Correia, o relatório do árbitro francês será a « peça fundamental » do processo aberto pela UEFA, especialmente num cenário em que as imagens televisivas podem ser inconclusivas, dado o relato de que o jogador do Benfica usou a camisola para tapar a boca no momento da alegada ofensa.
« Na ausência de prova, partiríamos de um princípio de culpabilidade, quando a lei parte do princípio da presunção de inocência », alertou.
Para o académico, o comportamento « conflituoso e provocador » em campo de Vinicius — com incidentes semelhantes registados em Espanha — também deve ser tido em conta na análise da animosidade gerada.
« O comportamento do atleta não pode valer tudo. Há limites no desporto de alto rendimento e a sua postura pode dar origem a situações de animosidade, embora sem nunca desculpabilizar [o racismo] », frisou.
O Benfica já veio a público reiterar total confiança na versão de Prestianni, que nega os insultos, lamentando o que considera ser uma « campanha de difamação ».
O clube da Luz garantiu “total espírito de colaboração” com UEFA, que nomeou, entretanto, um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar o caso, prevendo-se a audição de ambos os atletas nos próximos dias.
Infantino, « chocado » com incidentes na Luz, quer responsabilizar culpados
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, mostrou-se “chocado e entristecido” com o incidente no jogo da Liga dos Campeões de futebol entre Benfica e Real Madrid, no qual Vinicius Júnior acusou Prestianni de racismo.
“Eu fiquei chocado e entristecido ao ver o suposto incidente de racismo contra Vinícius Júnior na partida da Liga dos Campeões Europeus entre Benfica e Real Madrid”, começou por dizer o dirigente na rede social Instagram.
O presidente da FIFA reiterou não existir espaço para o racismo no futebol e na sociedade, acrescentando ser necessário “que todas as partes interessadas relevantes tomem providências e responsabilizem os culpados”.
Na nota, publicada nas suas ‘stories’ no Instagram, o dirigente máximo do futebol mundial deixou também elogios ao árbitro do jogo no Estádio da Luz, o francês François Letexier, “por ativar o protocolo antirracismo ao usar o gesto dos braços para interromper o jogo e gerir a situação”.
O árbitro francês François Letexier interrompeu o encontro e acionou o protocolo antirracismo, retomando a ação quase 10 minutos depois.
Após o encontro, Prestianni negou qualquer insulto racista a Vinícius Júnior, enquanto o internacional brasileiro e outros jogadores do Real confirmaram a ofensa por parte do argentino.
PVCD instaura processo de contraordenação para apurar alegado racismo na Luz
A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), organismo sob a tutela do governo, instaurou hoje “um processo de contraordenação” para apuramento de factos no alegado incidente de racismo no jogo Benfica-Real Madrid.
“(…) A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) instaurou um processo de contraordenação, com vista ao apuramento dos factos”, refere o organismo em comunicado, explicando que em análise estão os alegados insultos, atos de racismo, no jogo no Estádio da Luz.
Com Agência Lusa.