Prestianni no ‘olho do furacão’, após alegado caso de racismo

Benfica´s Gianluca Prestianni (L) vies for the ball with Real Madrid's Vinicius Junior during the UEFA Champions League soccer match between Benfica and Real Madrid, in Lisbon, Portugal, 17 February 2026. JOSE SENA GOULAO/LUSA

O jogador do Benfica Gianluca Prestianni poderá enfrentar uma suspensão mínima de 10 jogos e até uma queixa-crime em Portugal, caso se confirmem os insultos racistas a Vinícius Júnior, defendeu um especialista em Direito do Desporto.

« Estamos a falar de sanções que, pela gravidade da situação, podem ir de uma multa de milhares de euros até uma suspensão temporária que pode ultrapassar os 10 jogos », explicou, declarações à agência Lusa, Lúcio Miguel Correia, professor de Direito do Desporto na Universidade Lusíada de Lisboa.

Na terça-feira, em partida da primeira mão do ‘play-off’ da ‘Champions’, que o Real Madrid venceu por 1-0, o avançado brasileiro Vinícius Júnior, após ter marcado o único golo do jogo, terá sido alegadamente vítima de um insulto racista por parte do argentino Gianluca Prestianni, extremo do Benfica.

O árbitro francês François Letexier interrompeu o encontro e acionou o protocolo antirracismo, retomando a ação quase 10 minutos depois.

Após o encontro, Prestianni negou qualquer insulto racista a Vinícius Júnior, enquanto o internacional brasileiro e outros jogadores do Real confirmaram a ofensa por parte do argentino.

A confirmar-se o crime de racismo ou xenofobia, o jogador argentino, aponta Lúcio Miguel Correia, arrisca, além de pesadas multas, possíveis consequências laborais e criminais.

« O comportamento é antiético e pode haver um processo disciplinar do próprio clube”, disse, acrescendo que “chamar ‘macaco’ ou usar expressões de teor racista é um crime em Portugal, podendo o Ministério Público entender avançar com o processo e o próprio Vinícius pode fazer queixa nas autoridades portuguesas ».

O especialista ressalvou, contudo, que a aplicação destas sanções exige uma « prova mais profunda, mais substancial”.

« O árbitro tem de ter uma certeza inequívoca de que as palavras foram proferidas, quem as proferiu e que foram de teor racista, coisa que, a meu ver, deixa dúvidas, porque o atleta veio desmentir”, defendeu o jurista, acrescentando que « não basta a simples denúncia » do jogador brasileiro, ainda que corroborada por colegas de equipa, como Kylian Mbappé.

O protocolo, defendeu, só deve ser aplicado se não houver dúvidas da prática daqueles atos.

Para Lúcio Miguel Correia, o relatório do árbitro francês será a « peça fundamental » do processo aberto pela UEFA, especialmente num cenário em que as imagens televisivas podem ser inconclusivas, dado o relato de que o jogador do Benfica usou a camisola para tapar a boca no momento da alegada ofensa.

« Na ausência de prova, partiríamos de um princípio de culpabilidade, quando a lei parte do princípio da presunção de inocência », alertou.

Para o académico, o comportamento « conflituoso e provocador » em campo de Vinicius — com incidentes semelhantes registados em Espanha — também deve ser tido em conta na análise da animosidade gerada.

« O comportamento do atleta não pode valer tudo. Há limites no desporto de alto rendimento e a sua postura pode dar origem a situações de animosidade, embora sem nunca desculpabilizar [o racismo] », frisou.

O Benfica já veio a público reiterar total confiança na versão de Prestianni, que nega os insultos, lamentando o que considera ser uma « campanha de difamação ».

O clube da Luz garantiu “total espírito de colaboração” com UEFA, que nomeou, entretanto, um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar o caso, prevendo-se a audição de ambos os atletas nos próximos dias.

 

Infantino, « chocado » com incidentes na Luz, quer responsabilizar culpados

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, mostrou-se “chocado e entristecido” com o incidente no jogo da Liga dos Campeões de futebol entre Benfica e Real Madrid, no qual Vinicius Júnior acusou Prestianni de racismo.

“Eu fiquei chocado e entristecido ao ver o suposto incidente de racismo contra Vinícius Júnior na partida da Liga dos Campeões Europeus entre Benfica e Real Madrid”, começou por dizer o dirigente na rede social Instagram.

O presidente da FIFA reiterou não existir espaço para o racismo no futebol e na sociedade, acrescentando ser necessário “que todas as partes interessadas relevantes tomem providências e responsabilizem os culpados”.

Na nota, publicada nas suas ‘stories’ no Instagram, o dirigente máximo do futebol mundial deixou também elogios ao árbitro do jogo no Estádio da Luz, o francês François Letexier, “por ativar o protocolo antirracismo ao usar o gesto dos braços para interromper o jogo e gerir a situação”.

O árbitro francês François Letexier interrompeu o encontro e acionou o protocolo antirracismo, retomando a ação quase 10 minutos depois.

Após o encontro, Prestianni negou qualquer insulto racista a Vinícius Júnior, enquanto o internacional brasileiro e outros jogadores do Real confirmaram a ofensa por parte do argentino.

 

PVCD instaura processo de contraordenação para apurar alegado racismo na Luz

A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), organismo sob a tutela do governo, instaurou hoje “um processo de contraordenação” para apuramento de factos no alegado incidente de racismo no jogo Benfica-Real Madrid.

“(…) A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) instaurou um processo de contraordenação, com vista ao apuramento dos factos”, refere o organismo em comunicado, explicando que em análise estão os alegados insultos, atos de racismo, no jogo no Estádio da Luz.

 

Com Agência Lusa.

 

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