Recordações de uma noite de terror em Paris. Foi há 4 anos

Publié le 13 novembre 2019

Recordações de uma noite de terror em Paris

BENOIT TESSIER/GETTY IMAGES

Há precisamente quatro anos, Paris mergulhava numa noite de pânico extremo, com o maior ataque em solo francês depois da Segunda Guerra mundial. O correspondente do Expresso estava perto dos locais dos principais ataques terroristas que fizeram 131 mortos e 400 feridos e recorda aqui o horror que então atingiu a cidade

Alfa/Expresso. Por Daniel Ribeiro. (Leia artigo original em expresso.pt)

Moro junto a uma das esquinas da rua du Chemin Vert e do Boulevard Voltaire, a menos de cinco minutos a pé da sala de espetáculos parisiense, Le Bataclan (igualmente no Bd. Voltaire).

Há quatro anos, a noite estava calma e com temperatura agradável, era sexta-feira e as esplanadas da capital francesa estavam repletas de gente.

Eu estava na do café “Le Comptoir Parmentier” perto de minha casa, quando por volta das 21 horas (mais uma hora do que em Lisboa), chegaram as primeiras notícias, via telefones móveis, sobre o início dos ataques em Paris.

Os patrões do café-restaurante reagiram de imediato. Pediram a todos os clientes que se refugiassem no interior e baixaram a persiana de metal que dá para a rua.

Alertado, perguntei aos donos do estabelecimento se tinham televisão ou um aparelho de rádio. Disseram-me que não tinham.

Ainda ninguém sabia exatamente o que se estava a passar e eu, agitado com as informações, telefonei a um amigo também residente em Paris (Mário Barroso, cineasta). Ele estava a ver as notícias na televisão e informou-me: “ainda não se sabe bem, mas há explosões junto ao Estádio de França (onde decorria um jogo de futebol amigável entre a França e a Alemanha, com a presença na tribuna do então Presidente, François Hollande, que foi imediatamente retirado do local)”.

Compreendi que algo de grave se estava a passar porque um cliente do “Le Comptoir” acabara de receber mais um telefonema no qual o informavam de ataques a tiro no nosso bairro, para os lados da não muito distante rue de Charonne, no 11.º de Paris. As informações chegavam em catadupa, via amigos no exterior, segundo as quais também se verificavam tiros em esplanadas do bairro número 10.

Não podia confirmar estas notícias, demasiado vagas, mas já pavorosas, precisava de trabalhar e dentro do café não o podia fazer. Pedi aos patrões para me deixarem sair e não aceitaram, por razões de segurança, levantar a persiana. Insisti e acabaram por me permitir partir pela porta da cozinha, nas traseiras.

Saímos para a rua Parmentier, eu e a minha companheira. Já não se via quase ninguém na rua, algumas pessoas corriam, apressadas, ouviam-se sons de muitas sirenes de veículos da polícia. Encostados às paredes dos prédios corremos para casa. À chegada à porta, dois jovens que estavam acocorados nuns arbustos da rua do Chemin Vert correram para nós e um deles pediu, com grande medo no rosto: “Por favor, deixem-nos entrar para o pátio, sabem o que está a acontecer em Paris?”.

Entraram e eu subi ao meu apartamento. Recolhi informações ainda muito baralhadas e parcelares, mas percebi de imediato que se tratava de terrorismo. Liguei para o então diretor do Expresso, Ricardo Costa e disse-lhe: “Paris está a ser atacada, há tiroteios, é grave”. O Ricardo perguntou: “Mas será terrorismo, não será banditismo, um assalto?”. Respondi: “Não, é terrorismo, já houve bombas no Estádio de França”. “Estás em condições de escrever?, escreve!”, disse-me. Comecei então a enviar as primeiras notícias para o jornal.

O PIOR ESTAVA PARA VIR

O pior estava para vir. Depois das explosões no Estádio, em Saint-Denis, junto ao “periférico”, a autoestrada que envolve Paris, terroristas tinham disparado rajadas contra dois cafés no 10.º bairro e alguns outros no 11.º.

Cerca das 21h50 começou um verdadeiro massacre. Três homens entraram de rompante no Bataclan, onde decorria um concerto da banda norte-americana, Eagles Of the Death Metal, com casa cheia. Começaram a disparar indiscriminadamente contra a assistência, provocando um clima de indiscritível de terror na sala, com gritos de dor e de pavor e correrias ansiosas de jovens que tentavam esconder-se, fugir e sair por qualquer meio do local.

Foi um banho de sangue. Os terroristas mantiveram uma centena de pessoas reféns na sala, durante duas horas. Só depois da meia-noite as forças especiais entraram na casa de espetáculos e começaram a controlar a situação.

Os terroristas do Bataclan suicidaram-se à chegada dos primeiros agentes. Em Paris, que estava em alerta máximo, davam-se os primeiros socorros aos muitos feridos (muitas vezes por vizinhos dos locais atacados, incluindo uma porteira e um porteiro portugueses), nos diversos locais dos ataques e o vai e vem de carros da polícia e de ambulâncias era estonteante. No boulevard Voltaire, junto a minha casa, só se ouviam sirenes e viam-se patrulhas de agentes muito nervosos e fortemente armadas a identificar toda a gente com que se cruzavam dando ordens, firmes e aos berros, às pessoas, para saírem das ruas.

Começou, então, a contagem macabra, que só bastante tempo depois ficaria completa: o conjunto dos ataques provocara a morte de 131 pessoas e deixara 413 feridas (duas das vítimas mortais eram portugueses: Manuel Dias e Précilia Correia).

Durante essa noite, no meu bairro, que já tinha sido atacado menos de um ano antes (atentado, com diversos mortos e feridos, contra o jornal satírico Charlie Hebdo), todos os residentes ficaram seriamente abalados. Alguns demoraram várias semanas até perderem as sombras de horror, de revolta e de incompreensão que se viram nas suas caras desde essa noite.

Um dos nossos vizinhos, o dono do bar Cent Kilos, em Saint-Ambroise, morreu durante um dos ataques. Estava na esplanada do café Belle Équipe (rua de Charonne) com amigos, quando este foi metralhado.

O inquérito sobre estes atentados terroristas, reivindicados pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), apenas foi concluído no passado mês de outubro. Só um dos atacantes, o franco-belga, Salah Abdeslam, sobreviveu e está preso em França, depois de ter sido condenado na Bélgica a 20 anos de prisão por um ataque a tiro em Bruxelas, a 15 de março de 2016, que feriu três polícias. Abdeslam apenas foi preso três dias depois deste novo ataque. Com ele mais 14 pessoas são acusadas pelos ataques de há quatro anos em Paris, mas o franco-belga é o único considerado “autor material” dos atentados.

Hoje, as autoridades francesas assinalam o aniversário com diversas homenagens em Paris e em Saint-Denis.


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