Salários portugueses crescem três vezes menos do que a média da OCDE

Publié le 10 juillet 2018

Desemprego alto dos últimos anos provocou cicatrizes. Regime do subsídio de desemprego forçou a aceitação de salários mais baixos. Desatualização das qualificações ajuda a agravar.

O salário médio declarado à Segurança Social subiu, até abril, apenas 1,6% face aos primeiros quatro meses de 2017, indicam dados do ministério de Vieira da Silva. Há um ano, o ritmo era três vezes superior; o ordenado médio bruto declarado estava a subir 5,4%. Depois desacelerou tanto que o aumento médio ficou-se por apenas 1% no ano de 2017 como um todo.

Este avanço médio de 1%, que resulta das declarações de 2,4 milhões de pessoas à Previdência, é uma situação que deve repetir-se em 2018, ou seja, será três vezes inferior à média dos países ricos.

Em 2018, o salário português cresce três vezes mais devagar face ao que sucede na OCDE (2,9%) e a metade do ritmo da zona euro (2,2%).

As previsões mais recentes, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), por exemplo, sinalizam que pouco irá mudar nos próximos tempos. A remuneração média bruta por trabalhador irá crescer 1% neste ano e 1,5% na média de 2018 e 2017, colocando assim Portugal como um dos países de maior moderação salarial no grupo das 32 economias desenvolvidas analisadas – as que formam a OCDE.

As projeções do chamado clube dos países mais ricos mostram que o aumento médio salarial em 2018 e 2019 pode ascender a 3,1% na OCDE, o que significa que em Portugal os ordenados estão a crescer a metade do ritmo, até menos. A média estimada para a zona euro também é superior: 2,3%.

Olhando apenas para o ano corrente, a discrepância é ainda maior. Em 2018, o salário português cresce três vezes mais devagar face ao que sucede na OCDE (2,9%) e a metade do ritmo da zona euro (2,2%).

Razões que ajudam a explicar este fenómeno não faltam. Os níveis elevados de “subutilização” do trabalho; o enfraquecimento dos sindicatos e da contratação coletiva, sobretudo durante os anos do programa de ajustamento da troika, mas que ainda hoje se sente; o facto de a economia portuguesa continuar ainda muito baseada em atividades pouco produtivas; o regime do subsídio de desemprego que se tornou mais restrito e obriga a aceitar ordenados inferiores, as qualificações relativamente baixas das pessoas; as cicatrizes do desemprego prolongado, que levam à desatualização das qualificações, e o desemprego jovem ainda muito alto.

Stefano Scarpetta, o diretor da OCDE para a área do Emprego, constata no seu blogue que os ensinamentos clássicos de economia “sugerem que menos desemprego se traduz em mais concorrência entre os empregadores para terem trabalhadores“, ou seja, “o crescimento dos salários deveria acelerar”. “No entanto, não é isso que estamos a ver”.

Por exemplo, a OCDE nota, em relação às cicatrizes que ficam quando se está muito tempo inativo, que Portugal pode ser dos piores casos. Cá, esse regresso ao emprego é muito mais demorado, o que tem consequências graves sobre as qualificações procuradas. A tecnologia avança, os modelos de negócio também, logo há uma desatualização rápida das “competências” humanas.

“Os que perderam o emprego encontram novos empregos muito mais rapidamente em alguns países do que noutros. Enquanto na Finlândia e na Suécia, cerca de 90% foram reempregados dentro de um ano, em França e Portugal esse valor ronda 30%”.

No caso de Portugal, como de muitos outros países, a OCDE aponta outras razões-chave para a moderação salarial.

“Os últimos dados disponíveis mostram que existe uma elevada subutilização do trabalho em países como Islândia, Portugal e Eslovénia“. Além disso, “o ambiente de baixa inflação e o abrandamento da produtividade contribuíram para esta desaceleração nas atualizações salariais”.

Alfa/DN


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