Silêncio de Moscovo inquieta. Radiação aumentou 16 vezes após explosão em base militar

Publié le 14 août 2019

Radiação aumentou até mais 16 vezes após explosão em base militar russa. Moscovo mantém silêncio

Foto ADAM BERRY/GETTY IMAGES

Com Moscovo a manter o secretismo em torno do acidente, os dados divulgados pelo serviço de meteorologia e a ordem dada esta terça-feira para os habitantes de Nyonoksa deixem a localidade – alegadamente por causa dos trabalhos ligados à investigação – foram recebidos com desconfiança

Alfa/Expresso. Por Mafalda Ganhão

Mais do que a preocupação levantada pelo pouco que se sabe sobre a explosão que aconteceu na semana passada na base militar russa situada junto ao Mar Branco, é aquilo que se desconhece que inspira sentimentos de dúvida. Depois de finalmente Moscovo ter reconhecido, esta segunda-feira, que o acidente que vitimou pelo menos cinco especialistas esteve ligado à realização de testes com “novas armas”, a notícia mais recente – já avançada esta terça-feira – foi a ordem dada aos habitantes da localidade de Nyonoksa para que deixem as suas casas enquanto decorrem os trabalhos de investigação.

A versão oficial é a de que a retirada nada tem a ver com a explosão, justificando-se pelas atividades militares que aí decorrerão, mas a data de saída está marcada para a manhã de quarta-feira e os comboios que transportarão as cerca de 500 mil pessoas que aí residem já estão a caminho.

O local fica a cerca de 30 quilómetros de Severodvinsk, lugar onde pouco depois da explosão foi anunciado um pico de radioatividade, ainda que o caráter nuclear do acidente não tenha sido também admitido de imediato pelas autoridades russas.

De Moscovo, a informação sai a conta-gotas, e é esse secretismo que está a gerar o nervosismo que Chernobyl explica. Com o serviço meteorológico nacional a confirmar que os níveis de radiação na cidade de Severodvinsk aumentaram entre 4 a 16 vezes, face ao habitual no território, às 12h00 de 8 de agosto, há quem duvide que a subida fosse apenas momentânea – como fez crer o próprio município na sua página online, sublinhando não haver risco para a saúde.

COMPROMISSO PARA NÃO FALAR

Há mais informações a contribuir para a intranquilidade. Esta terça-feira, a agência Tass avançou que os médicos que trataram as vítimas foram enviados para Moscovo para, eles próprios, serem examinados clinicamente. Mas não sem antes assinarem um documento comprometendo-se a não divulgar qualquer detalhe sobre o que observaram ou concluíram.

O que está em jogo? Porque se, por um lado, parece seguro que este acidente não é comparável ao desastre de Chernobyl, com a Agência de Segurança Radioativa e Nuclear da Finlândia a confirmar que, de facto, os valores da radiação atmosférica voltaram ao normal depois da explosão, por outro, ninguém duvida que Putin guarda segredos.

Especialistas norte-americanos citados pelo “New York Times” acreditam que os testes conduzidos a partir de uma plataforma offshore se destinavam a avaliar o SSC-X-9 Skyfall. Foi o Presidente russo quem, em 2018, anunciou a intenção de desenvolver um míssil nuclear de cruzeiro capaz de usar uma fonte de combustível nuclear a bordo e de voar por períodos indefinidos, contornando qualquer sistema anti-míssil conhecido. Uma arma para chegar a qualquer parte do planeta.

Uma fonte da indústria militar russa desmentiu que esse fosse o míssil a ser testado, mas pouco mais se saberá enquanto o acidente continuar sob investigação, considerada segredo de Estado. Tal como se mantém sob segredo de Estado o caso ocorrido em julho, quando 14 oficiais russos morreram a bordo de um submarino nuclear que se incendiou no mar de Barents.


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