
Progresso social, construção europeia e arquitetura monumental: trinta anos após a sua morte, o legado de François Mitterrand continua a marcar profundamente a França.
Primeiro presidente de esquerda da V República, falecido a 8 de janeiro de 1996, François Mitterrand governou o país durante catorze anos e deixou uma herança política e cultural tão vasta quanto complexa.
Há exatamente trinta anos desaparecia François Mitterrand, eleito chefe de Estado por dois mandatos consecutivos numa época em que o mandato presidencial tinha a duração de sete anos. A sua chegada ao poder, em 10 de maio de 1981, representou um verdadeiro terramoto político, pondo fim a décadas de alternância impossível para a esquerda. Com ela veio uma vaga de profundas transformações sociais, mas também um estilo de governação singular.
Os primeiros anos da presidência foram marcados por uma forte euforia social. As expectativas eram imensas e a promessa de “mudar a vida” parecia concretizar-se, num clima de esperança coletiva. O balanço das reformas sociais permanece significativo: abolição da pena de morte, despenalização da homossexualidade, reforço dos direitos sindicais e sociais, quinta semana de férias pagas, redução do tempo de trabalho para 39 horas semanais. Medidas que moldaram duradouramente a sociedade francesa, apesar do travão imposto pela viragem para a austeridade, em 1983.
No plano internacional, o legado de François Mitterrand revela-se particularmente atual. A sua visão diplomática, frequentemente descrita como “gaullo-mitterrandista”, assentava na independência estratégica da França e no não-alinhamento automático com o bloco atlântico.
Profundamente marcado pela Segunda Guerra Mundial, François Mitterrand fez da construção europeia um pilar central da sua ação política, apostando no reforço do eixo franco-alemão. Em 1995, no Parlamento Europeu, deixava um aviso que ressoa ainda hoje: “O nacionalismo é a guerra. A guerra não é apenas o passado, pode ser o nosso futuro.”
Mas o legado de François Mitterrand não é apenas político. O presidente socialista quis também ser um presidente construtor, deixando uma marca física duradoura no território francês, em particular em Paris. Desde o início do seu primeiro mandato, lançou um vasto programa de grandes obras arquitetónicas sem equivalente em termos de ambição e custos. Ao longo de dois mandatos, estes projetos representaram mais de 34 mil milhões de francos.
Entre essas realizações emblemáticas encontra-se a Ópera da Bastilha, concebida como um símbolo de democratização cultural e de modernidade, destinada a complementar a Ópera Garnier. Desenhada pelo arquiteto luso-canadiano Carlos Ott, foi inaugurada em 1989. Outro projeto central foi a célebre pirâmide de vidro, assinada por Ieoh Ming Pei. Tornou-se um dos ícones mais reconhecidos de Paris, apesar das fortes polémicas que acompanharam a sua criação. Inaugurada em 1989, simboliza a devolução plena do Louvre à sua vocação museológica. Também foi decisão de François Mitterrand a construção do vasto complexo de Bercy, apelidado de “paquebote”, inaugurado também em 1989. A Grande Arche de La Défense completa este eixo monumental que marca a capital. Concebida pelo arquiteto dinamarquês Johan Otto von Spreckelsen, tornou-se um símbolo do bairro de negócios. Por fim, a Biblioteca Nacional de França, que hoje leva o nome de François Mitterrand, representa o último e mais colossal dos seus projetos. Desenhada por Dominique Perrault, foi inaugurada em 1995 e apresentada então como a biblioteca mais moderna do mundo.
Trinta anos após a sua morte, François Mitterrand permanece uma figura incontornável da história contemporânea francesa. Político habilidoso, europeu convicto, presidente da cultura e construtor visionário, o seu legado continua a moldar a França de hoje, tanto nas instituições como na paisagem urbana e no imaginário coletivo.
Didier Caramalho