Governo ponderou decretar estado de emergência

Publié le 2 décembre 2018

Vasta zona do centro de Paris atingida pela violência de ontem. Governo não exclui decretar estado de emergência. Presidente Emmanuel Macron reúne gabinete de crise e pode decretar o estado de emergência depois das cenas de inacreditável vandalismo e de guerrilha urbana de ontem em diversas zonas nobres da capital.  Até o Arco do Triunfo foi profanado. Para apaziguar a cólera dos “coletes amarelos”, Macron poderá ter de ceder a algumas das suas principais reivindicações.

Alfa/Expresso. Adaptação. Por Daniel Ribeiro (leia mais sobre esta crise em França em expresso.pt)

(Photo by Geoffroy VAN DER HASSELT / AFP)

Retrato rápido de um sábado de caos em Paris: duras cenas de guerrilha urbana, diversos incêndios de dezenas de automóveis, de autocarros, de barricadas, e mesmo de árvores, de bancos e de prédios, destruição e pilhagens de lojas e de bancos, 287 detidos, mais de 100 feridos entre eles 17 polícias. Um dos feridos , um “colete vermelho” radical, está este domingo entre a vida e a morte depois de um incidente, durante a noite, na rua de Rivoli, junto ao Jardim das Tulherias.

Neste domingo, os parisienses acordaram de manhã atónitos com a espantosa destruição que atingiu na véspera, durante horas e horas a fio, uma muito vasta zona de vários quilómetros quadrados do coração da capital.

Algumas das imagens dos incêndios de ontem faziam lembrar as das periferias, em 2005, quando Paris esteve cercado por uma revolta durante cerca de um mês. Mas o caos que se viveu no sábado desde manhã cedo e se prolongou durante a noite não tinha nada a ver com os acontecimentos de há 13 anos.

Desta vez, foram atingidas diversas das partes mais nobres e mais chiques da capital, os bairros números 16, 8, 9 e 1, em pleno centro histórico e turístico, onde apenas reside gente abastada – da Praça do Trocadéro e do quarteirão da Ópera a diversas ruas da zona dos Campos Elísios, passando pelas muito conhecidas avenidas Foch, Kléber, Grande Armée, Iéna, Raymond Poincaré ou Haussmann, entre outras.

Dezenas de ruas e praças ficaram irreconhecíveis depois da passagem de três mil “coletes amarelos” radicais que se dividiram em pequenos grupos muito móveis de algumas dezenas de pessoas e que, depois do cair da noite, atacaram simultaneamente em diversos locais da cidade colocando os parisienses residentes nessas zonas em autêntico estado de pânico.

Os 4600 polícias que tinha sido destacados para garantirem a segurança na capital pouco puderam fazer e tiveram muitas vezes que recuar face à grande violência dos ataques que os visavam. Os polícias apenas conseguiram manter de pé as barragens que não permitiram aos radicais chegarem perto do Palácio Presidencial do Eliseu e da Embaixada dos Estados Unidos da América, que eram dois dos seus principais alvos.

Símbolo entre os símbolos da Pátria e do mundo, até o Arco do Triunfo, onde se encontra o túmulo do soldado desconhecido, foi vandalizado, profanado e pilhado. Nas suas veneráveis pedras ficou escrito “Macron Demissão”, que voltou a ser, pelo terceiro sábado consecutivo, a reivindicação mais ouvida em Paris.

Falando a partir da Argentina, onde estava na cimeira do G20, o Presidente Emmanuel Macron condenou “os que apenas querem o caos”, garantiu que nunca aceitará a violência e marcou uma reunião de crise para logo que regresse a Paris, neste domingo.

Nos corredores do poder, na capital, não se exclui a declaração do estado de emergência na cidade, com designadamente a proibição de manifestações. “Para mim não há tabu, nenhuma pedida pode ser excluída”, declarou a este respeito o ministro do Interior, Christophe Casyanter.

Mas a medida poderá ser contestada pelos “coletes amarelos” e também pelos partidos que apoiam o movimento, que vão da extrema-direita à extrema-esquerda, passando pelos da direita clássica (Os Republicanos) e os socialistas. Só os apoiantes da República em Marcha, de Emmanuel Macron, e uma parte dos ecologistas, do ministro do Ambiente, François de Rugy, não apoiam os “coletes”.

Muitos comentadores consideram que Emmanuel Macron e o Governo apenas têm uma saída para tentar acabar com esta crise considerada “demasiado grave”: ceder a algumas reivindicações do movimento, designadamente através de uma moratória sobre os aumentos dos preços dos combustíveis previstos para um de janeiro e “um gesto” a favor das pensões de reforma e dos salários mais baixos.

Esta revolta inédita dos “coletes”, nascida na internet há menos de três semanas sem ideologia nem líderes nacionais conhecidos, começou por protestar contra o aumento dos preços dos combustíveis. Mas hoje as suas revindicações são muito mais vastas e vão do poder de compra e aumentos de salários e pensões ao pedido de demissão do presidente Emmanuel Macron, à convocação de eleições legislativas antecipadas e mesmo ao fecho do Senado.

Além de Paris, neste sábado decorreram manifestações em dezenas de outras cidades francesas, com registos de violência e incidentes mais ou menos graves igualmente em Marselha, Nice, Toulouse, Dijon, Estrasburgo e Lille, entre outras localidades.

Até aos confrontos e às cenas de guerrilha de ontem, cerca de três quartos dos franceses apoiavam os “coletes”, segundo diversas sondagens. Até essa altura, eles eram vistos como uma espécie de porta-vozes da França profunda, da revolta da província contra as elites de Paris, das pessoas das classes baixas e médias que precisam de um carro para ir à farmácia, ao hospital ou ao supermercado.

O apoio dos franceses aos “coletes amarelos” manteve-se intacto depois das manifestações violentas de há oito dias, quando incêndios e batalhas campais colocaram também, então, os Campos Elísios em estado de sítio.


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