‘Coletes amarelos’ esvaziam Paris

Publié le 8 décembre 2018

Tensão. Novos tumultos podem ser fatais para o Governo e até para os ‘coletes amarelos’, que se arriscam a perder apoio popular.

(Nesta foto, uma agência da CGD da zona do Arco do Triunfo)

Alfa/Expresso . Adaptação de um trabalho publicado no semanário Expresso por Daniel Ribeiro neste sábado, 08.

Governo começou a ceder a algumas reivindicações dos ‘coletes amarelos’, anunciando o abandono dos aumentos dos preços dos combustíveis, a suspensão dos do gás e da eletricidade e dos controlos técnicos dos automóveis. O movimento de protesto exige mais, designadamente aumentos dos salários e das pensões mais baixas. Mantém para hoje convocatórias de novas concentrações.

Depois da violência extrema dos dois últimos fins de semana nas zonas mais nobres de Paris, o primeiro-ministro e outros governantes dramatizaram o discurso e aconselharam os “‘coletes’ pacifistas” a evitarem Paris.

“Há grupos de vândalos que só pretendem atacar a polícia e vandalizar, não venham, eles querem que haja mortos”, afirmou Édouard Philippe. O chefe do Governo falava na televisão, quinta-feira à noite, depois de um dos ‘coletes’ mais conhecidos, Eric Drouet, ter dito que o objetivo para este sábado é “entrar no Eliseu”, ou seja, invadir o palácio presidencial, onde Emmanuel Macron continua fechado e sem dizer uma palavra em público sobre a crise.

Ontem de manhã chegou o anúncio de que o chefe de Estado falará ao país na próxima semana. Tudo indica que Macron espera para ver o que acontecerá hoje. O seu silêncio tem sido muito criticado e alguns ‘coletes’ pedem-lhe que os receba com urgência. “Não é normal que o Presidente se feche no bunker do Palácio quando o país está à beira da insurreição e da guerra civil”, comenta um porta-voz do inédito movimento, Benjamin Cauchy.

77% APOIAM ‘COLETES’

Devido à violência e a declarações deste tipo, a angústia começa a atingir toda a gente, apesar de 77% dos franceses continuarem a apoiar os ‘coletes’, segundo uma sondagem divulgada anteotem pelo jornal conservador “Le Figaro”.

A inquietação é geral. O Governo parece estar a organizar as forças de segurança para responder taco a taco a ataques dos manifestantes mais radicais. Philippe, que garante ter informações de que estes extremistas, os chamados casseurs, estão a organizar-se para atacar “as instituições”, anunciou que 89 mil polícias e gendarmes (equivalentes à GNR) serão mobilizados para todo o país, oito mil só na capital (quase o dobro dos de sábado passado). Até 12 viaturas blindadas da gendarmeria marcarão presença nas ruas da Cidade-Luz.

Foram tomadas precauções extraordinárias, e Paris vai ser uma cidade morta. O comércio foi aconselhado a fechar em diversos bairros, e os cafés e restaurantes deixarão de ter mesas e cadeiras nas esplanadas, tendo sido convidados a baixar os taipais mal aconteçam os primeiros incidentes. A Torre Eiffel estará fechada ao público, bem como diversos museus (Louvre, Orsay, Organgerie, da Arte Moderna, do Homem, entre outros) e ainda os Grand e Petit Palais, as duas óperas e até as catacumbas subterrâneas da cidade. Diversos jogos de futebol foram anulados, incluindo o Paris Saint-Germain/Montpellier.

“Há grupos de vândalos que só pretendem atacar a polícia e vandalizar (…) eles querem que haja mortos”, acusa o primeiro-ministro

O alerta é tal — os comerciantes das zonas mais sensíveis têm sido visitados um a um pela polícia — que em alguns centros comerciais, que ainda não decidiram fechar, dezenas de empregados desataram a pedir folgas para hoje. Aconteceu nas conhecidas galerias Lafayette e Printemps. Na primeira, certos sindicatos ponderaram apelar à greve, de forma a garantir a segurança dos funcionários. “Os empregados têm medo!”, disse ao Expresso um sindicalista. Depois, as galerias decidiram fechar as portas durante todo o dia de hoje.

PROTESTO ALASTRA AOS LICEUS

França está em polvorosa porque, desde há dias, os protestos alastraram aos liceus, com confrontos graves na região parisiense e na província. Só na quinta-feira foram detidos 700 estudantes por envolvimento em incidentes em diversos pontos do país.

Jovens liceais e alguns universitários apoiam os “coletes”, mas têm reivindicações específicas, como o abandono do “Parcoursup”, um novo sistema de seleção para entrar na Universidade.

Os “coletes” continuam, entretanto, a bloquear estradas, sobretudo na província. Pedem aumentos e a reposição do Imposto Sobre a Fortuna, revogado por Macron pouco depois de ter chegado ao Eliseu. Não parecem dispostos a parar, apesar do recuo do executivo. “Cedeu, recuou? Foi pouco e demasiado tarde!”, exclamou uma manifestante em Marselha.

O “Presidente dos ricos”, como lhe chamam, vive os momentos mais difíceis da sua curta presidência de 18 meses. As mais recentes sondagens indicam que tem o apoio de menos de 20% dos franceses. A contestação não se limita ao movimento dos ‘coletes’, que nasceu na internet, não tem estrutura, ideologia nem líder e pede a sua demissão, o fecho do Senado, legislativas antecipadas e a adoção de um sistema eleitoral proporcional.

Além dos estudantes, agitam-se os camionistas, que ameaçam bloquear o país a partir da noite de amanhã, domingo. Também apoiam os ‘coletes’ e contestam o plano de redução do pagamento das suas horas extraordinárias. Os agricultores poderão abrir outra nova frente de luta na próxima semana. A poderosa Federação Nacional dos Sindicatos Agrícolas apela a protestos contra os preços de venda dos seus produtos, nomeadamente às grandes empresas de distribuição.

Os motoristas de ambulâncias e pequenos patrões do sector também se manifestam contra uma reforma que, a seu ver, permite a “uberização” dos seus serviços, favorecendo as grandes firmas do ramo. Na segunda-feira, centenas de ambulâncias bloquearam a circulação na Praça da Concórdia e na zona da Assembleia Nacional, no coração de Paris.

JÚPITER DESCE À TERRA

É sem dúvida o movimento dos ‘coletes amarelos’, no entanto, que mais problemas coloca ao Presidente, que perdeu boa parte da sua áurea inicial. “Desejava ser Júpiter? Desça à terra!”, lançou-lhe Benjamin Cauchy.

No Arco do Triunfo foram apagadas, domingo passado, as palavras “Macron Demissão”, que tinham sido escritas pelos casseurs na véspera. Outras frases foram eliminadas na Ópera Garnier. Numa lia-se: “Macron = Louis 16”, em referência ao rei que a Revolução Francesa guilhotinou.

A conjugação de protestos é inquietante para o poder e diz-se que a angústia já chegou a Bruxelas, à Comissão Europeia. Diplomatas europeus em Paris seguem os conflitos com apreensão, porque um descalabro de Macron poderia abrir as portas do poder a Marine Le Pen, a líder nacionalista e populista.

É verdade que o jovem chefe de Estado, de 41 anos, também ajudou a deteriorar a sua imagem. “Que venham ter comigo!”, desafiou, em tom fanfarrão, os que o criticavam durante o caso Benalla (o seu ex-chefe da segurança foi filmado a bater em manifestantes no passado dia 1 de maio).

Alguns ‘coletes’ querem ir mesmo ter com Macron ao Eliseu. Todavia, ambém poderão perder o apoio popular, se a opinião pública não aceitar que a guerrilha urbana se prolongue no tempo.

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