Irredutíveis gauleses contra Presidente “insensível às pessoas”

Publié le 1 décembre 2018

‘Coletes amarelos’ voltam à rua: “Desde maio de 68 que não se via coisa assim!”, diz uma líder sindical da polícia. Irredutíveis gauleses contra Presidente “insensível às pessoas”.

Alfa/adaptação de artigo publicado no Expresso deste sábado, edição semanal. Por Daniel Ribeiro

Milhares de polícias mobilizados e milhares de manifestantes são esperados, hoje, em zonas centrais e turísticas da capital francesa. Paris vive mais um sábado de alta tensão, o terceiro consecutivo, depois dos violentos confrontos e incêndios de há uma semana e de terem sido erguidas numerosas barricadas na principal sala de visitas da cidade, na Avenida dos Campos Elísios e em redor do Arco do Triunfo.

Duas semanas após ter nascido, via internet, com bloqueio de estradas e pontos económicos estratégicos em todo o país, o inédito movimento dos ‘coletes amarelos’ continua a ser apoiado por cerca de dois terços da população francesa (segundo sondagens) e coloca Emmanuel Macron e o Governo em grandes dificuldades.

Os ‘coletes’ desconcertam o poder, que não sabe como responder-lhes. A revolta surgiu contra o aumento dos preços dos combustíveis, mas as reivindicações depressa se estenderam ao poder de compra, ao aumento das pensões de reforma e salários mais baixos, ao restabelecimento do imposto sobre a fortuna (ISF revogado por Emmanuel Macron, a quem os ‘coletes’ chamam “Presidente dos ricos”).

Agora os manifestantes exigem mesmo novas eleições. Gritam “Macron demissão”, pedem a dissolução do Parlamento, querem fechar o Senado — que “só serve para gastar milhões”, diz um deles ao Expresso — e acham que a atual composição da Assembleia Nacional não representa o país.

Em poucos dias, os ‘coletes’ afirmaram-se como porta-vozes da França profunda que precisa do carro para ir à farmácia, ao hospital ou ao supermercado, e da revolta das províncias contra as elites de Paris. Sem ideologia nem líderes nacionais, encostaram o poder à parede. Para já, Macron e o seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, prometeram apenas ajustar os impostos sobre os combustíveis à flutuação dos preços do petróleo. Continuam a garantir que não abandonarão as medidas previstas para a “transição ecológica fundamental”.

FIM DO MUNDO E FIM DO MÊS

Os governantes anunciaram, porém, uma mudança de método. O chefe de Estado aceita dialogar e debater com a sociedade a nível nacional, “durante três meses” e de forma descentralizada, “com todos os atores políticos e associativos, incluindo os ‘coletes amarelos’”. Macron promete: “Vamos discutir os problemas ecológicos, ou seja, o clima e o aquecimento global, o fim do mundo, e o poder de compra dos trabalhadores, isto é, o fim do mês.”

A força do movimento surpreendeu a Presidência e o Governo, que numa primeira fase optaram por menosprezá-lo. Tentaram marginalizá-lo e colá-lo a “vândalos” e “ultras”, à extrema-direita e à extrema-esquerda, mas não funcionou. Entre a centena de detidos na manifestação de sábado passado, a larga maioria era gente simples, com profissões normais, sem passado político nem ficha na polícia. Muitos participavam pela primeira vez numa manifestação.

É certo que tanto Marine Le Pen, líder dos populistas e nacionalistas franceses, como Jean-Luc Mélenchon, chefe da esquerda “não alinhada”, apoiam o movimento. Mas não são só eles. A direita clássica (Os Republicanos) e os socialistas também estão com os ‘coletes’, tal como o anterior Presidente, François Hollande, e a sua ex-mulher, Ségolène Royal, antiga ministra da Ecologia. “É preciso continuar!”, disse-lhes Hollande, surpreendentemente, na quinta-feira.

Com a popularidade em queda acentuada (26% de opiniões favoráveis, segundo recente estudo de opinião), Macron é considerado por manifestantes contactados pelo Expresso na Praça da República, em Paris, — quinta-feira à noite durante uma concentração de esquerda —, como “insensível aos problemas das ‘pessoas pequenas’”.

Forçado pela pressão da rua e pelo descontentamento que atravessa o país de lés a lés, o Presidente tenta apaziguar e travar a mobilização marcada para hoje em Paris e noutras localidades. Deu ordens ao primeiro-ministro e ao ministro da Ecologia, François de Rugy, para receberem representantes dos ‘coletes amarelos’. Começaram a fazê-lo nos últimos dias, mas o diálogo não está fácil, porque as reivindicações são vastas e, sobretudo, porque o movimento não tem verdadeiros representantes e as suas bases não reconhecem os que foram convidados para reuniões nos ministérios.

IRREDUTÍVEIS GAULESES

A impopularidade do chefe de Estado cresceu após o caso Benalla (chefe da segurança de Macron que tentou montar no Eliseu uma polícia paralela e foi filmado a bater em manifestantes a 1 de maio, em Paris). Macron cometeu também gafes terríveis para a sua imagem. Certo dia, numa rua da capital, disse a um jovem horticultor desempregado que “bastava atravessar a rua” para encontrar trabalho. Noutra altura, na Dinamarca, elogiou os cidadãos locais, deplorando que os franceses não fossem como eles, e sim “gauleses refratários à mudança”. “Aqui tens, Macron, os irredutíveis gauleses refratários na rua!”, exclamam por estes dias alguns dos ‘coletes’ durante os bloqueios.

Macron promete ajustar os impostos sobre o combustível ao preço do petróleo, mas não deixa cair medidas de transição ecológica

A crise social começa a perturbar as fileiras macronistas, e alguns deputados da maioria inquietam-se e pedem “uma moratória” sobre os aumentos dos combustíveis, previstos para 1 de janeiro. Hoje, as autoridades tentarão evitar a todo o custo a repetição das cenas violentas de há oito dias.

Tudo aponta para que os manifestantes sejam numerosos e tentem, de novo, desfilar nos Campos Elísios. A conhecida avenida estará fechada ao trânsito e o ministro do Interior, Christophe Castaner, anunciou que será montado um dispositivo para controlar “sistematicamente” a identidade de todos os que quiserem entrar na zona.

Na internet, os apelos a manifestações “cívicas e apolíticas” multiplicaram-se nos últimos dias, em praticamente todo o país. Em Paris, além de os ‘coletes amarelos’ pretenderem voltar ao Arco do Triunfo, aos Campos Elísios e à Praça da Concórdia (o mais perto possível do palácio presidencial do Eliseu), há convocatórias para outras zonas sensíveis da capital: junto à Igreja da Madalena, perto da Concórdia, e ainda nas praças da República e da Bastilha.

Para complicar ainda mais a vida ao Governo, alguns sindicatos apelam à participação nas manifestações, e associações de estudantes liceais também dão sinais de querer juntar-se ao movimento. Os ‘coletes amarelos’ dizem que a França vai conhecer hoje o Ato III deste protesto original no país.

Alguns comparam estes acontecimentos ao sucedido em maio de 1968, que paralisou a França durante um mês inteiro. Para este sábado, a segurança será extrema: mais de cinco mil polícias foram destacados só para Paris. “Desde maio de 68 que não se via uma coisa destas!”, exclamava, ontem de manhã, Linda Kebbab, líder de um sindicato da polícia francesa.


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