Crónica. Os “casseurs” fazem parte da paisagem

Publié le 3 janvier 2019

Os “casseurs” fazem parte da paisagem – Crónica publicada por Daniel Ribeiro (Jornalista, correspondente do Expresso e diretor de antena da Alfa), no semanário Expresso de 08/12/18.

Alfa/Expresso

Há décadas que Daniel Ribeiro, jornalista e correspondente do Expresso, vive em França. Aqui nos traz o seu olhar sobre os tumultos dos ‘coletes amarelos’ (crónica publicada no semanário a 08/12/2018):

É espantoso, mas é verdade. A violência dos casseurs (vândalos) é vista como algo quase normal pelos franceses, que estão muito habituados a conviver com ela. No que me diz respeito, os casseurs estão ligados à minha vida de jornalista. Desde 1980, quando cheguei a França, vi poucas grandes manifestações — e segui muitas — que não acabassem em tumultos mais ou menos graves, por vezes até com mortos.

Neste aspeto — e isso surpreendeu-me —, os protestos sociais, em França, são muito diferentes dos de Portugal, onde predominam os balões, os sons da ‘Grândola Vila Morena’, os apitos, os cartazes e, no fim, os discursos dos líderes sindicais, bem como “finos”, tremoços e umas bifanas entre camaradas.

Em França, ouve-se também, por vezes, ‘Le Chant des Partisans’ em alguns desfiles, mas os casseurs nunca estão muito longe. Quando eles entram em ação a música é desligada. Os sindicalistas enrolam as bandeiras e os cartazes e deixam-nos sozinhos no terreno para os confrontos com a polícia. É quase sempre assim. São geralmente jovens extremistas políticos, mas também podem ser apenas vândalos ou mesmo simplesmente ladrões que querem servir-se nas lojas que assaltam no meio do caos.

Em maio de 1968, os jovens franceses revoltosos também foram chamados todos os nomes por erigirem barricadas, ocuparem bairros inteiros, universidades e fábricas, atacarem e destruírem bancos e lojas de luxo. Pouco tempo depois, os casseurs de 68 passaram a heróis, foram incensados como se fossem poetas ou visionários que contribuíram para criar um mundo mais feliz e mais livre.

Antes, durante a Segunda Guerra Mundial, os resistentes franceses eram apelidados de terroristas pelo regime colaboracionista (com o nazismo) do marechal Philippe Pétain, que tinha, sublinhe-se, legitimidade democrática. Depois, com a chegada ao poder do general de Gaulle, muitos desses “terroristas” foram condecorados e elogiados por terem provocado descarrilamentos de comboios, dinamitado pontes, incendiado prédios e atacado e maltratado colaboracionistas que respeitavam as leis da época. Alguns deles chegaram a ministros e a chefes políticos.

Os “casseurs” colocam em questão a segurança das pessoas e a ordem pública, mas contribuem, à sua maneira, para forçar as saídas das crises

Aprendi por isso, em França, a relativizar e a ter cuidado com as palavras que escrevo nos meus textos.

Um dia, conheci e entrevistei longamente um advogado que era uma pessoa fora do comum e muito polémica. Chamava-se Jacques Vergès e tinha defendido o indefensável: além do “terrorista Carlos”, que assim ficou conhecido para a história, representara o torcionário nazi e criminoso de guerra Klaus Barbie. Justificou o seu papel no processo porque, disse, todo o acusado tem direito a uma defesa digna desse nome.

Durante o nosso encontro de duas horas, Vergès deixou correr a conversa e, a certa altura, disse-me algo que nunca esqueci: “Olhe, no Direito, tudo depende de quem escreve a lei, um bombista palestiniano, por exemplo, pode ser condenado como terrorista em Israel, em França ou noutro país ocidental qualquer, mas quando houver um Estado palestiniano, pode ser declarado herói nacional”.

Vergès, que faleceu em 2013, defendia a mesma linha em relação aos casseurs. Nunca condenou por exemplo a violência que incendiou as periferias de Paris, em 2005.

Se ainda fosse vivo, poderia ser advogado de alguns dos réus que estão a responder — em sessões sumárias, com “comparecimento imediato” — nos julgamentos das centenas de pessoas detidas nos dois últimos sábados durante os incidentes muito radicais e violentos dos ‘coletes amarelos’ contra os impostos e pelo aumento do poder de compra. São julgamentos rápidos, ainda não terminaram, mas já permitem tirar algumas conclusões: entre 400 dos acusados presentes a tribunal, menos de 20 têm ficha na polícia como anarquistas do black bloc ou como militantes de extrema-esquerda ou de extrema-direita.

A larga maioria dos réus são pessoas “normais” — gente com empregos, da província ou da grande periferia de Paris — que se deslocaram à capital para manifestar contra a carestia da vida e que, por um motivo ou outro, se encontraram no meio do turbilhão da revolta, nos Campos Elísios e ruas adjacentes e foram, então, detidas.

Os verdadeiros casseurs, os que aproveitaram para roubar ouro e perfumes das marcas Dior ou Chanel, sapatos e roupas ou dinheiro e telefones, não estão no tribunal. Desapareceram. Tal como os que profanaram o símbolo dos símbolos da pátria e até da Humanidade, o Arco do Triunfo, e que, diz-se, até tentaram apagar a chama do túmulo do soldado desconhecido. Entre estes também poucos foram presos.

São geralmente jovens extremistas, mas também podem ser apenas vândalos ou ladrões que querem servir-se nas lojas que assaltam no meio do caos

Em todas as grandes manifestações francesas há casseurs, repito. Já fazem parte da paisagem da contestação à la française. Os governos, a polícia, os sindicalistas e, no caso desta crise, a maioria dos ‘coletes amarelos’, que é pacifista, tentam prevenir e conter a violência, sabem que eles se infiltram nos desfiles, mas não deixam de se manifestar mesmo sabendo que a qualquer momento podem eclodir confrontos verdadeiramente perigosos.

Precisamente porque a presença de vândalos, por vezes muito brutais, nos protestos é já quase uma banalidade e porque já se habituaram a cenas de guerrilha e a batalhas campais, o poder e os analistas voltam sempre também, depois de numa primeira fase condenarem veementemente a violência, ao fundo do problema: porquê os protestos?

Os casseurs colocam em questão a segurança das pessoas e a ordem pública, mas contribuem, à sua maneira, para forçar as saídas das crises, seja desmobilizando e desmoralizando os pacifistas ou obrigando o Governo a abrir negociações.

Na crise atual, a violência extrema assusta grande parte dos manifestantes, mas também perturba fortemente o poder do chefe do Estado, Emmanuel Macron. Mas isso também não é novo. Já aconteceu numerosas vezes no passado com todos os presidentes da V República, de De Gaulle a Pompidou, de Giscard d’Estaing a Mitterrand, passando por Chirac, Sarkozy ou Hollande.

No entanto, Macron, de 41 anos, enfrenta um desafio mais espinhoso do que os outros: como não tem passado e peso político e partidário nem de longe nem de perto comparável aos seus antecessores e fez carreira num grande banco de negócios, os casseurs e mesmo os ‘coletes’ mais pacifistas respeitam-no pouco e insultam-no ferozmente sempre que ele sai à rua.


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