“Era como se estivessem numa prisão”. Família e bebé português retidos no aeroporto em Paris já estão em liberdade

Publié le 20 mai 2020

“Era como se estivessem numa prisão”. Família e bebé português retidos no aeroporto em Paris já estão em liberdade

Fotografia da zona de partidas do aeroporto Charles De Gaulle, em Paris

AURELIEN MEUNIER/ GETTY IMAGES

A mãe é portuguesa e tem 25 anos, o pai é cabo-verdiano e tem 29, o bebé nasceu há um mês em Portugal. História foi denunciada por associação francesa de defesa dos direitos dos imigrantes, que considerou a situação como “clausura”

Alfa/Expresso. Por Marta Gonçalves e Mafalda Ganhão

Ele é cabo verdiano e tem 29 anos. Ela portuguesa e tem 25. Os dois viajaram de Lisboa para Paris com o filho de ambos, nascido há um mês em Portugal. A família ia juntar-se para cumprir o resto do confinamento na capital francesa, onde o homem trabalhar e mora. No entanto, foram travados no aeroporto Charles de Gaulle pelas autoridades fronteiriças, que os deteve por quatro dias. Foram esta quarta-feira libertados.

“Não tinham mais que um quarto muito pequeno para os três, não podiam ter acesso aos telefones. Era quase como uma prisão, podiam estar no corredor mas estavam sempre a ser controlados por polícias”, conta ao Expresso Quentin Dekimpe, advogado da família.

De acordo com o estado de emergência definido pelo Governo francês, neste momento só as viagens consideradas essenciais estão permitidas. Apesar de o homem ter “um contrato legal de trabalho e autorização de residência no país e de a mãe e bebé serem portugueses”, foram detidos, explica Laure Palun, diretora da Associação Nacional de Assistência Fronteiriça para Estrangeiros, que denunciou a situação.

O caso foi apresentado ao juiz de Bobigny, nos arredores de Paris, que considerou que não era urgente. Recorrendo da decisão, o caso foi ainda entregue a um juiz administrativo na segunda-feira, mas o casal e o bebé continuaram detidos.

“Foram libertados esta quarta-feira porque a lei não permite que estejam detidos mais de quatro dias. Ainda tentaram mandá-los de volta para Portugal, mas não conseguiram”, explica Laure Palun.

Tanto a associação como o advogado denunciam a falta de condições sanitárias do local em que a família ficou detida. “Não existiam as mínimas condições de segurança para se protegerem da covid-19, não havia espaço para que o distanciamento social fosse garantido, não havia álcool para desinfetar, faltava sabão para lavarem as mãos, não tinham máscaras. Embora não sejam conhecidos casos da doença na zona de trânsito do aeroporto, estavam a pôr esta família – e as outras pessoas que também foram detidas – em risco”, crítica Laure Palun.

“A limpeza do local era claramente insuficiente tendo em conta o que é necessário para evitar a transmissão do vírus, uma série de pessoas a partilharem os mesmos duches e casas de banho sem cuidados de limpeza”, acrescenta Quentin Dekimpe.

Descreve ainda a associação que, ao longo de todo o dia, naquelas instalações do aeroporto há um “altifalante ligado a dar ordens às pessoas”. “Isto é desgastante e muito stressante¨, refere Laure Palun, sublinhando que entretanto foi chamado um médico para observar o bebé.

O pai já vivia e trabalhava em Paris. A mãe continuava em Portugal, onde passou a gravidez e teve o bebé. Para cumprirem o que falta do confinamento juntos, o pai viajou até Lisboa para ir buscar a mulher e filho. Estavam agora de regresso à capital francesa, onde também iriam permanecer em quarentena.

Além desta família, a Associação Nacional de Assistência Fronteiriça para Estrangeiros dá conta de cerca de 20 pessoas detidas nestas instalações aeroportuárias destinada aos viajantes que não têm autorização de entrada no território francês e que aguardam o repatriamento.. Entre elas está ainda um bebé de 16 meses que chegou do México com a mãe.


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