Incêndios. Na primeira prova de fogo mostrámos a nossa impotência. Opinião

Publié le 7 août 2018

Incompreensão. Opinião, por Rui Gustavo, Expresso

incêndio monchique
 

Primeiro foi o calor extremo, agora é o vento forte: o incêndio de Monchique continua incontrolável pelo quinto dia consecutivo. Ontem, a meio da tarde, chegou a estar perto de ser declarado extinto, mas durante a noite e a madrugada entrou no perímetro urbano de Monchique, obrigando à evacuação de centenas de pessoas em várias aldeias. Hoje de manhã a situação é dramática e apesar de descida acentuada da temperatura, o vento forte é agora o inimigo.Já arderam 20 mil hectares de floresta, há casas destruídas e 29 pessoas ficaram feridas. As chamas ameaçaram o quartel dos bombeiros e o convento de Nossa Senhora do Desterro. Mais de mil homens combatem as chamas, alguns em condições muito precárias, como Expresso Diário denunciou ontem, noticiando o facto de haver bombeiros que combatem o fogo a dormir no chão .

O mais impressionante ou chocante de tudo isto é que estava, literalmente, escrito nas estrelas: antes do verão um estudo universitário identificava a zona de Monchique como aquela onde era mais provável que ocorressem grandes incêndios. Ainda em choque com as tragédias de Pedrógão e do Pinhal Interior – morreram mais de cem pessoas há menos de um ano, não podemos esquecer – o Governo anunciou um esforço nunca visto para prevenir e combater os incêndios. Nunca se limpou tanta mata e vegetação; os meios, ainda que insuficientes, também nunca terão sido tantos e, no entanto, à primeira prova de fogo continuamos a mostrar a nossa impotência.

É verdade que os fogos, como o vento e o calor, são inevitáveis. Mas há muito trabalho por fazer, a especialização das equipas e a profissionalização dos bombeiros, defendida pelas equipas de trabalho que analisaram os grandes fogos do ano passado ainda está por realizar e ainda não foi encontrada uma forma de interiorizar que o combate aos fogos se faz durante o ano todo. A associação de bombeiros profissionais vai pedir uma audiência ao ministro Eduardo Cabrita para tentar perceber porque é que cinco dias ainda não foram suficientes para extinguir o fogo. E o verão ainda está a meio.

O fogo está nas primeiras páginas de todos os jornais de hoje que ajudam a perceber o que ainda está mal. O Público noticia: “Plano de gestão para Monchique parado há sete meses”. Um projeto estruturante para Perna Negra, precisamente onde o fogo começou, está na gaveta à espera de aprovação perante a incompreensão da Associação de Produtores Florestais. Estavam previstos caminhos e pontos de água para combater os fogos. Parece simples. O Correio da Manhã publica uma foto impressionante das chamas a cercar Monchique e o JN, mais pessimista, descreve um “Inferno sem fim à vista“. No I, um problema: “173 chamadas sem resposta” para o 112, no domingo. De acordo com este jornal, amanhã, quinta e sexta “meio país será atendido por apenas três pessoas”.É um ponto fraco. No DN, a rendição: “Fizemos tudo o que devíamos e perdemos tudo na mesma”. No Expresso Diário, o fim: “Não ficou nada para contar a história”.


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