
Bernadette Chirac, viúva do antigo Presidente francês Jacques Chirac, morreu sexta-feira, 5 de junho, aos 93 anos. A informação foi conhecida este sábado. A antiga Primeira-Dama era uma das últimas figuras próximas do ex-chefe de Estado francês ainda vivas desde o início do percurso político de Jacques Chirac.
Bernadette Chirac dedicou grande parte da sua vida à ambição política do marido, acompanhando-o ao longo da conquista do poder. Durante anos, permaneceu na sombra de Jacques Chirac, mas acabou por ganhar maior protagonismo após a chegada do marido ao Palácio do Eliseu.
Nascida no seio da grande burguesia parisiense, cresceu entre um pai militar e uma mãe, descrita como “muito rígida”. Durante a juventude, estudou com a futura atriz Sylvie Joly antes de entrar no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), em 1950.
Foi nesta instituição que conheceu Jacques Chirac, na biblioteca da escola, em 1951. Na altura, Bernadette ainda usava o nome Chodron de Courcelles. Segundo recordou anos mais tarde à revista Paris Match, foi Jacques Chirac quem a abordou, convidando-a a integrar um grupo de trabalho entre estudantes.
“Era um homem alto, seguro de si”, recordaria Bernadette mais tarde. Apesar da sua “timidez doentia”, aceitou estudar com ele, partilhando apontamentos e revisões, antes de iniciarem uma relação amorosa que marcaria a vida política francesa durante décadas.
Um desejo de independência travado
Nos bastidores, Bernadette Chirac trabalhava ativamente para o marido. Presenças em estreias de ópera, eventos oficiais de que Jacques Chirac não gostava, ou receções a aliados políticos que se sentiam esquecidos acabavam muitas vezes por ficar sob a sua responsabilidade.
Apesar do papel dedicado ao marido, Bernadette tentou encontrar o seu próprio caminho. Regressou aos estudos com a intenção de descobrir a arqueologia, numa tentativa de ganhar alguma independência. No entanto, dividida entre o desejo de emancipação e a ambição política do marido, acabaria por desistir.
Segundo o autor Erwan L’Élouet, no livro Bernadette Chirac, le secret d’une conquête, Jacques Chirac terá reagido com dureza à ideia: “Vais acabar chicoteada, nua, no campus, vais arruinar a minha carreira.”
Ao longo dos anos, Bernadette reconheceu também ter aceite as várias infidelidades do marido. “As raparigas andavam sempre atrás dele”, confessaria mais tarde.
Apelidada de “a tartaruga” por Jacques Chirac, numa referência à sua prudência e lentidão, Bernadette acabaria, contudo, por afirmar a sua presença pública. Em 1994, um ano antes das presidenciais, assumiu a presidência da Fundação Hôpitaux de Paris, ligada à operação solidária “Pièces Jaunes”, destinada a apoiar crianças hospitalizadas.
A iniciativa ajudou a humanizar a imagem de Jacques Chirac numa altura em que enfrentava dificuldades nas sondagens. Um ano depois, Jacques Chirac chegava ao Palácio do Eliseu.
Já como Primeira-Dama, Bernadette escolheu como inspiração Hillary Clinton, mulher do então Presidente norte-americano Bill Clinton, chegando mais tarde a recebê-la na região francesa da Corrèze.
“Pièces Jaunes” e influência política
Bernadette Chirac procurou afirmar a imagem de um “casal presidencial”, mas acabou por ver parte do protagonismo ser ocupado pela filha Claude Chirac, responsável pela comunicação política do pai.
Ainda assim, continuou a reforçar a sua própria presença pública através da operação “Pièces Jaunes”, aparecendo regularmente na televisão ao lado do judoca David Douillet, uma das personalidades mais populares de França na época.
A exposição pública da antiga Primeira-Dama acabou por beneficiar Jacques Chirac, politicamente fragilizado após a dissolução falhada de 1997, que levou Lionel Jospin ao cargo de primeiro-ministro. Bernadette nunca escondeu a irritação com esse episódio e chegou a apelidar Dominique de Villepin de “Nero”, considerando-o um dos responsáveis pelo fracasso político.
Determinada a manter a sua influência, Bernadette percorreu durante anos o país no chamado “TGV Pièces Jaunes”, numa campanha solidária com forte adesão popular.
“Para algumas pessoas, Chirac é o marido da Senhora ‘Pièces Jaunes’”, chegou a dizer com humor.
Poucos meses antes das presidenciais de 2002, publicou o livro Conversations, que vendeu perto de 300 mil exemplares e lhe valeu várias aparições mediáticas na televisão francesa.
Com Agências e BFMTV.