Andar nas ruas do centro de Paris, por estes dias, é um exercício de análise sociológica. Os símbolos de luxo da cidade exibem os resquícios da passagem dos ‘coletes amarelos’, que não dão tréguas desde novembro de 2018, e a segurança faz-se de forma mais musculada. Nas mesmas localizações (Campos Elísios, rua Saint Honoré e Praça Vendôme), o chique parisiense mostra-se inabalado, pelo menos na Rive Droite, a margem do rio Sena mais tradicional e sofisticada.

Em brasseries, floristas, esplanadas e bares de hotéis — ou, simplesmente, nas ruas —, as francesas continuam firmes a defender o estatuto de referência de estilo. Na roupa e na beleza. Às caxemiras e aos lenços de seda, acrescentam o batom vermelho e os cabelos impecavelmente em desalinho. Ou alinhados com um chignon ou um corte carré, numa infinidade de louros, castanhos e cores mais ousadas (menos comuns na margem conservadora do Sena).

O hair stylist francês John Nollet com duas modelos, nos bastidores do desfile La French, Art of Hair Coloring, no Carrousel du Louvre, em Paris

O hair stylist francês John Nollet com duas modelos, nos bastidores do desfile La French, Art of Hair Coloring, no Carrousel du Louvre, em Paris

É com esta inspiração que a L’Oréal Professionnel celebra o ‘je ne sais quoi’ dos cabelos franceses e assinala os 110 anos de existência, iniciada quando o jovem engenheiro químico, Eugène Schueller, cria a primeira formulação para tingir cabelos, que vende aos cabeleireiros parisienses, dando origem ao maior grupo mundial de produtos de beleza e cosmética (L’Oréal). E é num dos símbolos de Paris, o Carrousel du Louvre, que a divisão de produtos profissionais do grupo L’Oréal celebra a arte da coloração de cabelos ‘à francesa’.

Nos bastidores acertam-se os últimos detalhes, pelas mãos de seis hair- artists (a denominação sofisticada dos populares cabeleireiros) que fazem as suas criações com os produtos L’Oréal Professionel. São a meia dúzia mais afamada do mundo, pelo talento e lista de clientes célebres. É o caso da francesa Odile Gilbert (penteou Kirsten Dunst no filme ‘Marie-Antoinette’ e participa em inúmeros editoriais e desfiles de moda) e do seu conterrâneo John Nollet (penteou Audrey Tautou no filme ‘Amélie’ e Monica Bellucci, Isabelle Adjani, Marion Cotillard e Juliette Binoche).

Vindo dos Estados Unidos, Adir Abergel apresenta as suas interpretações das colorações de cabelo ‘à francesa’

Vindo dos Estados Unidos, Adir Abergel apresenta as suas interpretações das colorações de cabelo ‘à francesa’

Vindos dos Estados Unidos apresentam-se Adir Abergel (Anne Hathaway, Gwyneth Paltrow, Amanda Seyfried e Sienna Miller) e Anh Co Tran (Jessica Alba. Coco Rocha, Alexa Chung e Jessica Chastain), aos quais se somam Godhands Joe e Khun Gong, este último a vedeta dos cabelos na Tailândia, país em ascensão nas colorações, que crescem também na Ásia em geral.

Pentes, escovas, alisadores, frisadores e laca dão os últimos retoques antes do início do espetáculo, que arranca com as boas vindas de Nathalie Roos, presidente da divisão de produtos profissionais da L’Oréal, e Marion Brunet, diretora-geral internacional da L’Oréal Professionel.

Estão feitas as honras da casa. O palco passa para a cantautora Juliette Armanet, ao piano e a entoar baladas nostálgicas, evocando o romantismo da música francesa. Fica criado o ambiente para a apresentação do ‘La French, Art of Hair Coloring’, a razão pela qual mais de 2 mil convidados (entre 1700 hair-stylists, convidados e celebridades) estão reunidos, numa noite de domingo, no Carrousel du Louvre.

Dividido em quatro momentos, que remetem para vários estilos parisienses, o desfile arranca ao som da icónica ‘Paris Paris’. A canção que, em 1994, pôs a correr mundo a música de Malcom McLaren, acompanhada por vozes de apoio africanas e o timbre de Catherine Deneuve a declamar partes da letra, que é um tributo à ‘Cidade das Luzes’. A propósito: a atriz francesa encontra-se na plateia, lado a lado com outras celebridades, como Virgine Ledoyen, Elle Von Unwerth e Alexa Chung (embaixadora da L’Oréal Professionnel), por exemplo.

Catherine Deneuve com Jean Agon, presidente executivo da L’Oréal, e Nicolas Hieronimus, vice-presidente executivo da L’Oréal

Catherine Deneuve com Jean Agon, presidente executivo da L’Oréal, e Nicolas Hieronimus, vice-presidente executivo da L’Oréal

Sucede-se um desfile que percorre os estilos das duas margens do rio Sena, a boémia Rive Gauche e a burguesa Rive Droite, com penteados entre o desconstruído rock-chique de Charlotte Gainsbourg e a sofisticação incarnada por Catherine Deneuve no filme ‘Belle de Jour’, abrangendo todos os comprimentos de cabelos e colorações de louro, castanho e ruivo, e ainda os arrojados cinzento, cor-de-laranja e azul-cobalto. A fechar o ‘La French, Art of Hair Coloring’, um regresso ao passado palaciano, com cabelos volumosos ou entrançados a fazerem lembrar as empoadas cabeleiras reais.

Nathalie Roos, presidente da divisão de produtos profissionais da L’Oréal Professionel, ostenta um orgulhoso cabelo entre o branco e vários tons de cinzento, cortado ao nível dos ombros. Não é obra da coloração de um dos hair-stylists presentes, mas antes o culminar de um processo que começa aos 18 anos. Assume, desde essa época, o branquear precoce do cabelo sem pensar em escondê-lo com uma das muitas tintas que ajuda a vender. Diz, com humor, que está à frente da moda dos cabelos cinzentos, a cor que – garante – é a tendência número um em coloração nos dois últimos anos.

Nathalie Roos, presidente da divisão de produtos profissionais da L’Oréal, com o hair-stylists francês John Nollet

Nathalie Roos, presidente da divisão de produtos profissionais da L’Oréal, com o hair-stylists francês John Nollet

Os cortes e os penteados apresentados no Carrousel du Louvre são a expressão final daquilo que está na base do negócio que representa a maioria das vendas dos produtos profissionais da L’Oréal: a coloração. De uma opção funcional para cobrir os cabelos brancos, o tingimento cresce como uma expressão de identidade, com a explosão e diversidade de cores, em formulações temporárias, semi-permanentes ou permanentes. A ideia é garantir também que nem as mais céticas em relação aos processos químicos (ou às cores mais conservadoras) ficam de fora.

A tendência atual dos cabelos pintados há muito que é a prática corrente em França, onde é bastante difícil detetar se a cor dos cabelos das mulheres é aquela com que nasceram, seja pelo tipo de coloração ou pela forma chique como o penteiam. A ideia é ter uma tal misturada de tons, o menos uniforme possível, que distinga o cabelo pela naturalidade. Esta especificidade (entre outras) da elegância francesa é o que a L’Oréal Profissionel pretende que faça sonhar as clientes dos 300 mil salões de cabeleireiro, nos 66 países onde está presente. Seja com a marca que dá o nome à divisão de produtos profissionais, como com a Redken e a Kérastase, que também fazem parte do grupo, com um total de 550 cores diferentes.

Nathalie Roos entrega o futuro aos 1,5 milhões de cabeleireiros que, no mundo, utilizam as marcas L’Oréal como ferramentas de trabalho e que dão a liderança mundial ao grupo francês, que apesar de ter nascido com a coloração em 1909, hoje é um conglomerado na beleza e na cosmética. Soma mais de 50 marcas, divididas em luxo (Lancôme e Yves Saint Laurent), grande consumo (L’Oréal Paris, Garnier e Maybelline), cosmética ativa (Vichy, La Roche Posay e Skinceuticals), além da divisão profissional. No segmento que dirige, Nathalie Ross defende que o desafio é a formação dos cabeleireiros e transformar os salões em locais onde o aconselhamento é o principal ativo à venda.

Com Nicolas Hieronimus (vice-CEO da L’Oréal),a apresentadora e modelo inglesa, Alexa Chung, que é também a embaixadora mundial da L’Oréal Professionnel

Com Nicolas Hieronimus (vice-CEO da L’Oréal),a apresentadora e modelo inglesa, Alexa Chung, que é também a embaixadora mundial da L’Oréal Professionnel

Curiosamente, a responsável da L’Oréal relega para segundo plano a inovação dos produtos, porque se para quem vai ao salão a experiência não valer a pena, os produtos, por muito bons que sejam, ficam nas prateleiras. Atire a primeira pedra quem nunca saiu do cabeleireiro furiosa com a cor de cabelo desajustada do que foi pedido e a jurar nunca mais lá voltar… É por isto que a celebração dos 110 anos da L’Oréal Profissionel culmina com workshops para profissionais, no Palais de Tokyo, em Paris, onde os hair-artists tanto aprendem a trabalhar com os novos produtos, como testam inovações digitais, como o Style My Hair, que permite simular numa imagem real 3D o resultado final de uma coloração.

Nathalie Roos não teme a crescente sofisticação e diversificação dos produtos para pintar o cabelo em casa. Garante que o aconselhamento de produtos e a aplicação de técnicas profissionais fazem a diferença no resultado final. Sem revelar números, avança que as vendas nos salões crescem 2% ao ano e estão mais dinâmicas do que o negócio das colorações caseiras, outra grande área onde o grupo francês está instalado com as marcas L’Oréal Paris e Garnier.

A merecida dignidade reconhecida aos cabeleireiros, com a crescente valorização do seu trabalho e o estatuto de estrelas, é a alavanca que faz crescer um mercado onde as mulheres procuram para si um cabelo com a diferenciação saída das mãos de hair-stylists convertidos em celebridades. Nathalie Roos diz que enquanto a esmagadora maioria das marcas busca influenciadores que possam servir como embaixadores, a L’Oréal Professionel já os tem em casa. São 1,5 milhões de cabeleireiros espalhados pelo mundo a venderem o imaginário de classe e elegância das mulheres francesas. Inabalado pelos ‘coletes amarelos’. É a história de dualidade da convivência do luxo com a resistência que, na verdade, faz sonhar com as referências francesas.

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