Melissa Real, tal como muitos portugueses de visita a Portugal, foi apanhada desprevenida pela introdução de quarentena controlada num quarto de hotel no regresso ao Reino Unido, por isso já pensa em alternativas.
“De momento, a ideia para podermos voltar será irmos passar um mês a outro país europeu que não tenha restrições fronteiriças, Itália ou Espanha, por exemplo, e voarmos a partir de lá, já que a quarentena de hotel, no que diz respeito a países europeus, só se aplica a Portugal”, disse à agência Lusa.
Esta programadora informática de 31 anos, residente em Londres, viajou com o companheiro para Portugal a 21 de Dezembro, já sob restrições reforçadas, e estava consciente do risco de serem endurecidas, mas o facto de ambos poderem continuar em teletrabalho permite alguma flexibilidade nos planos de regresso.
Acima de tudo, recusa-se a cumprir quarentena de dez dias num quarto de hotel designado pelo Governo, medida que foi introduzida em 15 de Fevereiro para pessoas que cheguem de Portugal, a qual teria de custear.
Os hóspedes têm de ficar sempre no quarto, com alguma pequenas pausas para fumar ou apanhar ar sob a vigilância de seguranças, o que já causou alguns protestos.
“Não, nem pensar. As 1750 libras (2020 euros) são por cabeça, nem sequer são por quarto, e a área para a qual voltaríamos, Gatwick, é simplesmente miserável. Ninguém merece pagar tanto para ficar preso no quarto a ser alimentado o que o hotel providenciar, tal qual recluso”, afirmou a lisboeta.
Melissa Real está disposta a esperar, mas Carlos Custódio, proprietário de uma escola de dança, começa a ficar ansioso com o regresso, porque o plano de desconfinamento anunciado pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, permite-lhe reabrir a actividade a 12 de Abril.
“Preciso de voltar para preparar as coisas, reunir com os meus empregados, fazer algumas obras. Já pensei ir até Espanha e ficar dez dias, e depois viajar, mas as fronteiras estão fechadas. Tenho uma pessoa que me podia levar de camião, mas é arriscado”, admite à Lusa.
Os camionistas são entre as poucas excepções de profissões que estão isentos de quarentena em hotel, mas as penalidades para as infracções às regras são pesadas.
Logo a 16 de Fevereiro, quatro passageiros foram multados em 10 mil libras (11,5 mil euros) no aeroporto de Birmingham por não terem declarado que viajaram de um país da “lista vermelha”, mas a sanção pode ir até dez anos de prisão.
De acordo com a força de segurança das fronteiras [Border Force], Paul Lincoln, só 1% das cerca de 15 mil chegadas internacionais ao Reino Unido actualmente têm de cumprir quarentena em hotel, ou seja, 150 pessoas por dia, disse na semana passada.
« Desproporcionado e injusto »
Portugal foi incluído na lista de 33 países sobretudo africanos e sul-americanos devido às relações com o Brasil, pois que o Reino Unido quer evitar a importação de pessoas infectadas com variantes com mutações do coronavírus que causa a covid-19.
A exigência de cumprir a quarentena num quarto de hotel vigiado aplica-se a quem tenha estado nos dez dias anteriores num destes países, pelo que fazer uma escala prolongada noutro país é uma opção em discussão por mais portugueses nas redes sociais.
Além de potencialmente poupar dinheiro, a vantagem é que, à chegada ao Reino Unido, poderiam cumprir quarentena no conforto da própria casa, que é também a preferência de Ana Rita Franco, actriz e gerente de uma escola de aulas de teatro musical.
“Tentei voltar antes [de começar a regra dos hotéis], mas os preços dos bilhetes aumentaram muito. Para mim, o custo é impossível”, alegou, ainda incerta sobre quando irá poder regressar para o apartamento onde continua a pagar renda.
O embaixador de Portugal no Reino Unido, Manuel Lobo Antunes, insurgiu-se contra o “enorme encargo financeiro” e considerou as medidas “desproporcionadas e injustas”, num artigo publicado na sexta-feira no jornal Daily Telegraph.
“A meu ver, submeter qualquer ser humano a um regime de quarentena extrema, sob vigilância de seguranças, por um período de dez dias, e às suas próprias custas, não é algo que deva ser considerado”, argumentou.
O diplomata mostra esperança que a melhoria da situação epidémica em Portugal nas últimas semanas permita a saída da “lista negra” e permitir aos viajantes portugueses e britânicos que cheguem ao Reino Unido vindos de Portugal cumprir quarentena “no calor e conforto das suas próprias casas”.
O Governo britânico diz que mantém esta medida sob “avaliação constante”, mas não tem prevista data para uma potencial alteração, seja para remover ou adicionar mais países à lista.
O ministro dos Transportes, Grant Shapps, disse que as as restrições às viagens internacionais deverão manter-se até 17 de Maio, dependendo as alterações de um estudo com medidas para mitigar os riscos que deverá estar pronto a 12 de Abril.