Ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy vai ser julgado por corrupção

A justiça francesa validou definitivamente a realização do julgamento do ex-Presidente Nicolas Sarkozy num caso revelado por escutas telefónicas em que é nomeadamente acusado de corrupção de um magistrado, noticiou hoje a agência AFP citando fontes concordantes.

O Tribunal de Recurso de Paris rejeitou na terça-feira os últimos recursos de Sarkozy, do seu advogado Thierry Herzog e do antigo magistrado Gilbert Azibert para evitar o julgamento por “corrupção e tráfico de influências”.

O julgamento deve realizar-se em Paris nos próximos meses.

O processo tem a sua origem em escutas ao telefone de Sarkozy, executadas por ordem judicial para esclarecer suspeitas de que teria recebido dinheiro do líder líbio Muammar Kadhafi (1960-2011) para financiar a campanha eleitoral de 2007.

As escutas revelaram também conversas entre o ex-presidente e o seu advogado sobre a necessidade de obter, através do juiz Azibert, informação sobre o processo sumário, em que acabou por se ilibado, que investigava o alegado financiamento ilegal da campanha de 2012 pela herdeira do império de cosmética L’Óréal, Liliane Bettencourt.

Em troca das informações, Sarkozy prometeu ao juiz interceder para que viesse a ocupar a um importante cargo judicial no Mónaco.

O Supremo Tribunal validou a quase totalidade das escutas, sobre as quais assentam as acusações, abrindo caminho à realização do julgamento.

Sarkozy será o primeiro ex-presidente francês a ser julgado por corrupção.

Nicolas Sarkozy perdeu as eleições de 2012 para o socialista François Hollande e retirou-se da política em 2016, depois de ser derrotado nas primárias do seu partido, Les Républicains, para a candidatura à presidência.

Lusa/Fim

Vitória de Guimarães defronta Jeunesse Esch ou Tobol para a Liga Europa

O Vitória de Guimarães, da I Liga portuguesa de futebol, vai defrontar o Jeunesse Esch, do Luxemburgo, ou o Tobol Kostanay, do Cazaquistão, na segunda pré-eliminatória da Liga Europa, ditou o sorteio realizado hoje em Nyon, na Suíça.

Quinta classificada na última edição do campeonato nacional, a equipa vitoriana jogará a primeira mão fora de casa, em 25 de julho, e a segunda no Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, em 01 de agosto.

O Jeunesse Esch, terceiro classificado da liga luxemburguesa em 2018/19, e o Tobol, terceiro em 2018 e atual segundo classificado do campeonato cazaque, já com 14 jornadas decorridas, disputam a primeira pré-eliminatória em 11 e 18 de julho.

O sorteio realizado na sede da UEFA determinou também que a Roma, treinada pelo português Paulo Fonseca, vai defrontar o vencedor do confronto entre os húngaros do Debreceni e os albaneses do Kukesi, enquanto o Wolverhampton, orientado por Nuno Espírito Santo, jogará com a equipa que se impuser na eliminatória entre o Crusaders, da Irlanda do Norte, e o Torshavn, das Ilhas Faroé.

Alfa/Lusa.

Platini saiu em liberdade depois de muitas horas de interrogatório

Platini saiu em liberdade depois de muitas horas de interrogatório

Platini saiu em liberdade depois de muitas horas de interrogatório

Alfa/Lusa
O antigo presidente da UEFA Michel Platini saiu hoje em liberdade, depois de várias horas a ser ouvido, no âmbito da atribuição da organização do Mundial de futebol de 2022 ao Qatar.

“A custódio é suspensa”, disse, citado pela agência de notícias francesa France Press (AFP) o advogado do ex-futebolista internacional francês, já perto das 01:00 locais (menos uma hora em Lisboa), lamentando: “Muito barulho para nada”.

À saída das instalações do Instituto Anti-Corrupção da Polícia Judiciária francesa, em Nanterre, perto de Paris, William Bourdon afirmou que a detenção foi recebida por Platini como “injusta e desproporcional”.

O interrogatório “foi longo”, já que lhe foram feitas perguntas “sobre o Europeu de 2016, o Mundial de 2018, na Rússia, e o Mundial do Qatar, em 2022, o Paris Saint-Germain e a FIFA”.

Platini diz-se “sereno”, pois sente-se “estranho a qualquer negócio”, pelo que, segundo Bourdon, “não pode ser considerado suspeito, ontem, hoje ou amanhã”.

A assessoria de comunicação do ex-dirigente tinha manifestado a inocência do ex-dirigente.

“[Platini] não têm rigorosamente nada com que se recriminar e é totalmente alheio a factos que o ultrapassam. Exprimiu-se de forma serena, respondendo a todas as perguntas que lhe foram feitas pelos investigadores”, divulgaram, em comunicado.

Platini terá sido “ouvido pelos investigadores como testemunha, num quadro que o impede de contactar com outras pessoas envolvidas no processo”.

O ex-futebolista gaulês foi detido na manhã de terça-feira pelas autoridades francesas, por suspeita de corrupção na atribuição da organização do Campeonato do Mundo de futebol de 2022 ao Qatar.

Na base das suspeitas está uma investigação realizada em 2016 pelas autoridades francesas responsáveis pela investigação de crimes financeiros, com o objetivo de determinar a possível interferência dos poderes político e desportivo franceses no processo.

Em causa estão crimes de corrupção, associação criminosa e tráfico de influências, no âmbito de uma investigação em que a FIFA já manifestou disponibilidade para colaborar.

Platini tinha sido suspenso de todas as atividades ligadas ao futebol em maio de 2016, na sequência escândalo motivado pelo recebimento de 1,8 milhões de euros em 2011, por alegado trabalho de consultadoria, sem contrato escrito, pedido por Joseph Blatter, que era presidente da FIFA naquela data.

O ex-futebolista internacional francês, de 63 anos, assumiu a presidência da UEFA em 2007 e demitiu-se em maio de 2016, depois de o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) ter decidido o seu afastamento por quatro anos de todas as atividades ligadas ao futebol.

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Michel Platini detido em França por suspeitas de corrupção

Michel Platini detido em França por suspeitas de corrupção. Michel Platini, ex-presidente da UEFA, foi detido em França

 

AURELIEN MEUNIER – UEFA

Alfa/Expresso – fonte “Mediapart”

Michel Platini, ex-presidente da UEFA, foi detido esta terça-feira em França pela polícia durante investigação sobre alegada corrupção na organização do Campeonato do Mundo de 2022, no Qatar. A notícia foi avançada pelo site francês “Mediapart”.

Platini está detido em Nanterre, nos arredores de Paris, nas instalações do departamento de anticorrupção da polícia judiciária francesa.

O antigo presidente da UEFA é suspeito de ter favorecido a candidatura do Qatar para organizar o Mundial 2022. De acordo com a imprensa francesa, Claude Guéant, ex-chefe de gabinete de Sarkozy, também é suspeito de estar envolvido no esquema de corrupção, mas não foi detido.

“A situação dos portugueses na Venezuela é muito grave. Mas a grande maioria não quer regressar”

José Luís Carneiro: “A situação dos portugueses na Venezuela é muito grave. Mas a grande maioria não quer regressar”

 

José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas

Foto de ALBERTO FRIAS

Politicamente, a situação mudou um pouco na Venezuela nos últimos meses, com o reconhecimento de Juan Guaidó como presidente interino e a sua tentativa, fracassada, de afastar o Presidente venezuelano Nicolás Maduro do poder, mas os problemas da comunidade portuguesa e lusodescendente continuam. Continua a haver falta de medicamentos e de alimentos e continua a insegurança. Isso mesmo confirmou o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, no primeiro de três dias de visita ao país.

Alfa/Expresso – entrevista de Helena Bento e de Marta Gonçalves

A que se deve esta visita de três dias à Venezuela?

Esta visita tem quatro objetivos fundamentais. O primeiro tem que ver com as novas condições de apoio médico a portugueses e lusodescendentes. Como é de conhecimento público, foi realizado um acordo entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Movimento Associativo Português na Venezuela que permitiu o trabalho dos médicos em rede, facilitando os diagnósticos e exames, assim como elaborar os pedidos de medicamentos, posteriormente canalizados e enviados para o Ministério da Saúde.

Outro dos objetivos passa por estabelecer um diálogo com o Movimento Associativo, no contexto das candidaturas aos 100 mil euros em apoio financeiro disponibilizado pelo Estado português. Há uma terceira dimensão da visita, que tem que ver com o encontro com várias entidades do país: já reuni com a Conferência Episcopal e vou encontrar-me com conselheiros das comunidades, dirigentes de associações e também com deputados da Assembleia Nacional.

O objetivo é avaliar os termos em que os canais de comunicação e apoios estabelecidos, assim como as medidas que têm vindo a ser adotadas, estão a produzir os seus efeitos na vida concreta dos portugueses e dos lusodescendentes. Por último, refira-se que esta visita acontece também no âmbito das comemorações do dia 10 de junho, promovidas pela embaixada e nas quais participa uma grande parte da comunidade portuguesa e representantes de instituições venezuelanas, dos vários níveis de poder.

A Assembleia Nacional é composta na sua maioria por membros da oposição, portanto supõe-se que é com esses que pretende encontrar-se…
Sim, mas o encontro, que está marcado para as 9h00 de quarta-feira, será com deputados lusodescendentes. Temos mantido um diálogo com todas as forças políticas e institucionais da Venezuela. Ainda há pouco tempo, estive em representação do sr. ministro [Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros] num encontro com o Grupo de Contacto Internacional. E estive quer com Juan Guaidó, e os vice-ministros da União Europeia, secretários de Estado e líderes dos partidos da oposição, quer com o PSUV [Partido Socialista Unido da Venezuela, no poder] e o próprio Nicolás Maduro. Todos os atores institucionais são merecedores do nosso respeito e todos podem concorrer para uma solução política e pacífica para o impasse que se vive no país. Não se trata de um encontro político e bilateral.

Que temas serão tratados no encontro com os deputados da oposição?
Fundamentalmente, eles pediram para ser ouvidos e recebidos por nós, querem manter um diálogo com o Estado português e o Governo, e o nosso dever é ouvi-los, tal como ouvimos todos os outros representantes institucionais e tal como temos feito com outros portugueses e lusodescendentes eleitos para as instituições políticas dos seus países de acolhimento. Não podemos postergá-los só porque foram eleitos.

Mas há alguma ligação entre este encontro e a missão do Grupo de Contacto Internacional?
Não. Mas também não é um encontro paralelo. Eu estou aqui para falar com os portugueses e os lusodescendentes. E obviamente que os portugueses e os lusodescendentes que têm funções políticas também são merecedores da nossa atenção.

Algum deputado do partido no poder, e eleito para a Assembleia Nacional, pediu para ser ouvido?
Não. Mas eu falarei com todos aqueles que quiserem falar, é meu dever ouvir as suas preocupações e procurar canalizá-las pela via consular e diplomática.

Quando será o encontro? Não há qualquer referência na agenda oficial da visita.
Está marcado para quarta-feira, pelas 9h00 da manhã.

Portugal reconheceu Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. Isso veio afetar as relações diplomáticas com a Venezuela? Foi colocado algum entrave à presente visita ao país?
Tal como tem sido afirmado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, o Estado português reconheceu Juan Guaidó como presidente da Assembleia Nacional com o encargo de realizar eleições livres, democráticas e justas, no seguimento do mandato que lhe foi confiado por parte da União Europeia. Portugal teve uma posição de conformidade com a posição europeia. A administração do Estado venezuelano, a administração de facto, continua porém a funcionar, e os assuntos que nos interessam discutir, nomeadamente a proteção dos portugueses e dos lusodescendentes que aqui se encontram, são assuntos de Estado e têm de ser discutidos com o Estado. Quanto a entraves, não foram colocados nenhuns. Queria, aliás, referir, que as relações Estado a Estado, assim como as condições de trabalho consular e diplomático, têm-se mantido impecáveis.

Concluiu esta segunda-feira o seu primeiro dia de visita ao país e às comunidades portuguesa e lusodescendente. Quais as principais preocupações que lhe foram transmitidas?
No postos médicos, foi-me transmitida a informação de que a situação é, de facto, muito grave. Há problemas graves de saúde — como hipertensão, diabetes e doenças oncológicas — para os quais não há resposta do ponto vista das instituições locais. Também a escassez alimentar, ou a alimentação não adequada, têm causado problemas de saúde muito graves. Daí que haja um especial reconhecimento pela forma como o Estado português está a esforçar-se para, em circunstâncias tão difíceis, ter estruturas que dão apoio.

Quando fala de dificuldades no acesso a serviços de saúde, refere-se à falta de medicamentos?
A falta de medicamentos, ou o elevado preço dos que se encontram disponíveis, é uma das razões que leva os portugueses e lusodescendentes a procurar ajuda nestes postos de apoio médico. Do ponto de vista alimentar, têm-nos chegado relatos de que há produtos alimentares em falta em todo o país. A alimentação é feita à base de hidratos de carbono, faltam as proteínas (a carne, o peixe, os ovos) e as vitaminas. É pouco diversificada e isso traz consequências para a saúde.

É seguro para os portugueses estar na Venezuela?
A grande maioria dos portugueses com que falámos não querem regressar porque têm aqui as suas vidas construídas. Falei com uma das utentes das consultas médicas que me dizia que tinha cá os filhos, os netos e a casa, que tinha toda a vida aqui. É muito difícil — para não dizer impossível — deixar tudo para trás e regressar a Portugal. As raízes que os ligam aqui são tão profundas que dificilmente saem, mesmo com as oportunidades criadas pelo governo português. Não é expectável que regressem muitos mais a Portugal.

Mas não respondeu se era seguro ou não…
A Venezuela é um dos países onde há cidades com indicadores de violência dos mais altos do mundo. As fraudes e os raptos para efeitos de extorsão de dinheiro têm sido reportados por várias organizações internacionais. Contudo, o que se fala muito é da grande escassez de bens e condições económicas. E quando a escassez é profunda, os níveis de insegurança sentem-se.

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Mundial Futebol Feminino. Espanha faz História, França soma terceira vitória

Um empate sem golos com a China, no último jogo do Grupo B, foi o suficiente para Espanha chegar aos oitavos de final do Mundial feminino. Foi a primeira vez que La Roja conseguiu ultrapassar a fase de grupos desta competição.

Ainda no mesmo grupo, a Alemanha não sentiu dificuldades frente à África do Sul (4-0). Leupolz (14’), Dabritz (29’), Popp (40’) e Magull (58’) fizeram os tentos de uma equipa germânica que terminou o Grupo B só com triunfos.

Semelhante prestação teve a anfitriã França no Grupo A. A capitã Renard (78’) apontou de grande penalidade o golo da vitória das gaulesas sobre a Nigéria (1-0), que terminam esta fase com nove pontos.

Por último, a Noruega bateu a Coreia do Sul por 2-1 e garantiu um lugar nos oitavos de final. Hanse (4’) e Herlovsen (49’) fizeram os golos nórdicos, com Yeo Min-Ji (78’) a reduzir para a formação asiática.

Resultados e classificação

 

Grupo A

 

Nigéria – França, 0-1

Coreia do Sul – Noruega, 1-2

 

Equipa Jogos Pontos
1.França 3 9
2.Noruega 3 6
3.Nigéria 3 3
4.Coreia do Sul 3 0

 

 

Grupo B

 

África do Sul – Alemanha, 0-4

China – Espanha, 0-0

 

Equipa Jogos Pontos
1.Alemanha 3 9
2.Espanha 3 4
3.China 3 4
4.África do Sul 3 0

 

Alfa/aBola.

Ivo Vieira é o novo treinador do Vitória de Guimarães

O treinador Ivo Vieira vai orientar o Vitória de Guimarães, da I Liga portuguesa de futebol, após ter assinado um contrato válido para 2019/2020, anunciou hoje o emblema vimaranense no sítio oficial.

“A Vitória SAD informa que chegou a acordo com o treinador Ivo Vieira para a celebração de um contrato para a temporada 2019/20″, lê-se na nota, que informa ainda que a sua apresentação vai decorrer na terça-feira, às 12:00, no Estádio D. Afonso Henriques.

O técnico madeirense, de 43 anos, vai ocupar a vaga deixada em aberto pela saída de Luís Castro para os ucranianos do Shakhtar Donetsk, depois de, na época passada, ter conduzido o Moreirense, a outra equipa vimaranense à melhor classificação e pontuação de sempre – sexto lugar, com 52 pontos.

Natural do Machico, Ivo Vieira iniciou a carreira de técnico no Nacional, clube onde trabalhou como adjunto e, depois, como treinador principal, nas épocas 2010/11 e 2011/12 – os alvinegros estavam então na I Liga.

O treinador passou depois pelo Marítimo B, em 2012/13 e 2013/14, antes de subir à equipa principal ‘verde-rubra’, nas épocas 2014/15 e 2015/16.

O novo ‘timoneiro’ vitoriano passou ainda pela II Liga – Desportivo das Aves (2016/17) e Académica (2017/18) -, antes de regressar ao primeiro escalão nessa última época para treinar o Estoril-Praia, que foi incapaz de evitar o 18.º e último lugar.

Ivo Vieira assume o comando técnico do Vitória, num momento pré-eleitoral: a direção de Júlio Mendes, ainda em funções, demitiu-se em 27 de maio e as eleições estão marcadas para 20 de julho, com uma lista, encabeçada por Daniel Rodrigues, já confirmada.

Alfa/Lusa.

Oliveirense vence Benfica e sagra-se campeã portuguesa de basquetebol

A Oliveirense sagrou-se hoje pela segunda vez consecutiva campeã portuguesa de basquetebol, ao vencer em casa do Benfica, por 97-72, no quarto jogo da final.

O conjunto de Oliveira de Azeméis, que chegou ao intervalo com uma vantagem de 53-41, conquistou o segundo título da sua história, em seis finais disputadas, ao triunfar na eliminatória final, por 3-1.

O Benfica, que tinha falhado a final na última temporada, após nove presenças consecutivas, mantém-se como clube mais vitorioso, com 27 títulos, mais 15 do que o FC Porto.

 

Alfa/Lusa.

Futebol feminino. A vagina de Charlie Hebdo e a sátira preguiçosa e sexista

A vagina de Charlie Hebdo e a sátira preguiçosa e sexista

Uma crónica de

Paula Cosme Pinto

PAULA COSME PINTO / Expresso

Se querem tanto igualdade, então vamos criticar-vos tanto quanto aos homens no que toca à estupidificação de massas que é o futebol. Foi este o ponto de partida para a capa do Charlie Hebdo sobre o Mundial Feminino de Futebol, mas por mais que o argumento até pudesse ser um exercício de reflexão válido, a sátira deu lugar a apenas mais uma repetição de estereótipos sexistas, que – sem surpresas – reduzem as mulheres ao sexo. A sério que nem no humor se consegue mais do que esta piada básica?

Quer se goste ou não do registo, a equipa do Charlie Hebdo foi-nos habituando a cartoons provocatórios sobre os mais variados temas, desde a política ao terrorismo, da religião ao universo económico. O humor e a sátira são essenciais enquanto exercício de liberdade de expressão, escusado será dizer. É preciso que exista espaço livre para metermos o dedo nas múltiplas feridas das nossas sociedades e questionarmos o mundo que nos rodeia, mesmo que de vez em quando isto possa até parecer uma afronta a muitos dos paradigmas que nos regem. Quando isto é feito com inteligência, é brilhante. Quando é feito com preguiça, é apenas básico e, como neste caso, pode roçar o azeiteiro e não atingir qualquer propósito valido.

Muito fui lendo sobre a capa do Charlie Hebdo sobre o Mundial Feminino de Futebol, cujo cartoon se reduz a uma vulva entreaberta a ser penetrada por uma bola de futebol. O título que a acompanha é curto e grosso: “Vamos ter de comer disto durante um mês” (é a primeira vez que tal competição consegue ter esta duração, daí essa referência temporal, mas já lá iremos quanto à escolha da frase). Muita gente se indignou automaticamente, achando repulsiva a forma como se abordava o tema, não só pela sexualização da mulher – reduzida à sua genitália – como pela própria desvalorização de um acontecimento que é um marco na história do desporto feminino e que tem trazido para a esfera pública a discussão sobre uma série de tópicos tão importantes quanto a diferença de prémios, oportunidades ou obstáculos colocados a atletas masculinos e femininos, e o que tudo isto nos diz sobre a desigualdade de género.

Por outro lado, é curioso como tanta gente também tentou ver nesta capa um símbolo de poder, ora porque a bola poderia significar um clítoris e isto ser sinónimo de um mês de prazer para as mulheres, ora porque finalmente se enaltecia a genitália feminina sem pudor, e isso é empoderamento feminino. Tentar ver o lado positivo deste tipo de questão é não só um voto de boa fé, parece-me, mas também de certa forma uma tentativa de demonstrar que nós, mulheres, não estamos a sempre a ver coisas erradas onde elas até podem não existir, como agora tanto se apregoa. Isto parece-me um ponto de partida por si só representante de alguma desigualdade, como se as mulheres tivessem necessariamente de justificar as razões que as levam ao descontentamento, quando essas mesmas razões deviam ser do senso comum, mas adiante. Muitas interpretações foram feitas, é certo, mas basta ler o editorial para se chegar a uma triste constatação: este cartoon podia ser uma crítica brilhante e pertinente, mas cai no erro de ser apenas preguiçoso e reforçador de estereótipos.

O editorial – que podem ler clicando aqui – explica que no Charlie Hebdo a crítica é válida para todos, e que sendo o futebol um evento de massas que consideram patético, altamente corrupto e pouco adaptado à escala humana enquanto negócio, um evento desta dimensão merece ser satirizado, independentemente dos seus intervenientes. Aliás, o facto de as mulheres, no seu caminho pela igualdade de oportunidades, seguirem as pisadas erradas dos homens parece ser o ponto chave para a crítica implícita. Por mais que ache sempre por si só já um mau sinal penalizarmos duplamente as mulheres por repetirem os mesmos erros dos homens, como se estas tivessem de ser dotadas de uma superioridade moral enquanto seres humanos quando da vida em geral se fala, percebo o ponto de vista. E até acho que esta poderia ser uma reflexão pertinente, já que o sucesso feminino numa atividade masculinizada acaba também por depender de uma série de esquemas económicos que lhe traga uma dimensão e lucros associados que assim o permitem. Sem dinheiro envolvido, algum dele de proveniência duvidosa e à conta de uma massificação da modalidade que muitas vezes ultrapassa os tais valores humanos, não há crescimento da mesma. Muito bem, critiquemos isto, faz sentido. Mas depois lemos o editorial todo e há sinais de alerta no tom de desdém com que é escrito que nos levam a perceber o resultado final que fica tão aquém das expectativas.

“A igualdade hoje em dia é uma religião”, lê-se algures na prosa, que compara o sucesso de vendas deste Mundial Feminino a um novo detergente da roupa (pergunta para queijinho: se fosse um campeonato masculino fazia-se alusão um produto da esfera doméstica? (Estas subtilezas dizem muito). Religião e igualdade de género não são temas sequer equiparáveis, e a mensagem que se acaba por passar está longe de ser uma que assente no domínio da razão. Como se a discussão sobre igualdade de género assentasse apenas numa crença num deus qualquer abstrato e não uma necessidade de consciência plena sobre o respeito por direitos humanos básicos que se traduzem em pilares tão simples – mas longe de serem reais – como a igualdade de oportunidades, segurança, direitos e de dignidade entre homens e mulheres.

Um editorial que faz esta comparação, que considera que as mulheres querem é ser iguais aos homens nos tempos que correm (a sério que ainda acham que a luta pela igualdade é sobre isto?) e que reforça que hoje em dia vivemos num mundo onde qualquer homem branco acima dos 50 anos está sujeito a ser criticado mal ponha o pé em falso a falar com ou sobre mulheres, é um editorial escrito por alguém que na realidade não percebe bem o que está em causa quando deste tema falamos. E que muito provavelmente não percebe que a demanda das mulheres por um mundo mais equilibrado não é apenas uma demanda feminina, mas de todas as pessoas que percebem que já vai sendo tempo de retificarmos um desfasamento histórico que tem causado inúmeros prejuízos às vidas de milhões de vidas mundo fora. O que acontece no universo do futebol é apenas mais um exemplo.

Não me admira, portanto, que surja uma capa em que mais uma vez reduz a mulher àquilo que tem entre as pernas, retirando-lhe qualquer outra dimensão da sua existência. E que se opte por fazê-lo com recurso ao cliché de um estereótipo reproduzido à medida do prazer masculino e não da emancipação ou prazer feminino. Não é certamente ao acaso que a vulva está a ser penetrada por um objeto que ainda, quer queiramos quer não, é um símbolo masculino, e que o título use o jargão “comer disto”, é basicamente reduzir a mulher ao naco de carne do costume, aquele que é comido das mais variadas formas – física, emocional, moral, fantasiosa, social – pelo sexo masculino. Isto leva-nos mais uma vez a desfocar do essencial e a menosprezar a mulher enquanto ser humano para além do seu potencial sexual e erótico. É triste que nem mesmo a sátira consiga ir mais longe quando decide colar-se ao tema da igualdade e que caia no erro de recorrer à sexualização da mulher como primeira estratégia de abordagem a um tema que até podia fazer sentido. É como os comentários que se ouvem por cá nas bancadas durante os jogos de futebol feminino, que invariavelmente se reduzem a frases sexuais como “comia-te toda”, “belas mamas” ou “abocanha aqui”. Pelo vistos, no humor passa-se o mesmo: se o tema envolve mulheres, basta desenhar uma vulva, fazer um piadinha porca com duplo sentido e já está. Não é só o respeito que está em crise, pelos vistos a imaginação também. Enfim.